IPCA mostra deflação no Brasil e núcleo do CPI surpreende para cima nos EUA
No Radar do Mercado: IPCA de agosto reforça cenário de desinflação no Brasil, enquanto dados de inflação nos EUA vêm acima do esperado pelo mercado. Confira também um resumo dos temas mais importantes da semana
Por Carolina Sato
IPCA registra deflação em agosto
Na manhã desta sexta-feira (11), o IBGE divulgou que o IPCA de agosto registrou deflação de 0,32%, abaixo das expectativas do mercado (-0,29%), após alta de 0,07% em julho. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses recuou para 4,22%.
Na composição do resultado, os principais vetores de baixa vieram dos grupos "Habitação”, “Transportes” e “Alimentação e Bebidas”. O primeiro deles recuou 1,87% e respondeu por -0,29 p.p. do índice, refletindo principalmente a queda de 7,63% na energia elétrica residencial. Já “Transportes” caiu 0,86% e contribuiu com -0,17 p.p., impulsionado pelos recuos das passagens aéreas (-13,17%) e da gasolina (-0,59%), enquanto “Alimentação e Bebidas” registrou queda de 0,34% no mês.
Além do resultado cheio, a abertura qualitativa trouxe sinais positivos. Serviços subjacentes vieram um pouco melhores do que o esperado, com surpresa baixista relativamente disseminada, industriais subjacentes também mais comportados. Os principais núcleos de inflação acompanhados pelo Banco Central desaceleraram, apesar de uma pressão um pouco maior no núcleo de serviços.
Para a política monetária, o dado reforça uma leitura mais construtiva para a inflação no curto prazo. Ainda assim, a trajetória à frente continua permeada de incertezas.
Visão de Investimentos: o IPCA de agosto reforçou o cenário de desinflação em curso, mas não altera de forma relevante o balanço de riscos, que segue dependente de questões climáticas, da trajetória de serviços, do câmbio e do desenrolar do conflito. Diante das incertezas, o Banco Central continuará cauteloso e dependente de novos dados. Assim, seguimos com nossas recomendações neutras em todas as classes de ativos.
CPI dos EUA mostra inflação ainda pressionada em agosto
Já nos EUA, a divulgação do CPI de agosto mostrou avanço de 0,29% no núcleo, acima do esperado e com composição desfavorável.
A principal pressão veio de serviços excluindo habitação, com destaque para hospedagem e serviços de comunicação. O segmento de habitação foi o principal vetor benigno. Já no núcleo de bens, também houve aceleração em categorias como eletrônicos, veículos novos e vestuário, reforçando um quadro de inflação ainda elevada. Esse quadro sugere que as pressões inflacionárias seguem disseminadas nos EUA.
Após essa leitura, diversas casas revisaram suas estimativas para o núcleo do PCE para cima. Às vésperas da reunião de política monetária da próxima semana, o dado de hoje aumenta a pressão para o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) subir juros. Vale destacar ainda que o último payroll surpreendeu para cima e Kevin Warsh, presidente do banco central americano, adotou tom bastante duro em Jackson Hole. O mercado já precifica alta da taxa de juros americana para os próximos meses.
Visão de Investimentos: o CPI de agosto reforçou a percepção de que a inflação nos EUA segue em patamar elevado e que o processo de convergência para a meta deve ser bastante gradual. Diante das incertezas sobre a trajetória de inflação e política monetária, seguimos com nossas recomendações neutras também nos ativos internacionais.
Serviços reforçam leitura de desaceleração da atividade econômica doméstica
Passando agora para o resumo dos indicadores divulgados ao longo da semana e voltando para o Brasil, a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgada pelo IBGE na quinta-feira (10) mostrou volume estável em julho, após leve alta no mês anterior.
O principal destaque negativo foi o segmento de informação e comunicação, que recuou e devolveu parte do avanço recente, enquanto as demais grandes atividades registraram crescimento.
Apesar da abertura do dado sugerir uma composição menos fraca do que o número agregado, o resultado ainda é compatível com um ritmo mais moderado para o setor. Como serviços têm peso importante na dinâmica da atividade para sinalizar a força da demanda doméstica, a estabilidade observada reforça a leitura de desaceleração gradual no segundo semestre.
Focus mantém certa estabilidade no curto prazo, mas sem alívio relevante para a política monetária
Ainda no Brasil, a nova leitura do Relatório Focus trouxe mudanças marginais na edição divulgada na última terça-feira (8), mas preservou a mensagem central das últimas semanas. A projeção para o IPCA de 2026 recuou levemente, enquanto as estimativas para 2027 mostraram ligeiro avanço e 2028 ficaram estáveis. Já a inflação em 12 meses à frente continuou subindo.
Na atividade, as revisões também foram pequenas. A projeção para o PIB de 2026 avançou marginalmente, a de 2027 permaneceu estável e a de 2028 recuou um pouco. No câmbio e na Selic, não houve mudanças para o horizonte analisado.
Em conjunto, o relatório continua apontando para um crescimento mais moderado à frente e expectativas de inflação ainda elevadas. Ainda que a inflação corrente tenha mostrado sinais de desinflação, a reancoragem das expectativas ainda requer juros em patamar restritivo por período prolongado.
BCE sobe juros e projeções reforçam leitura mais dura
Na agenda internacional, a decisão do Banco Central Europeu (BCE) na última quinta-feira (10) também mereceu destaque. A autoridade monetária da região elevou as taxas de juros em 0,25 ponto percentual, em linha com o esperado.
Mais importante do que o movimento em si, amplamente antecipado, foi a combinação entre manutenção de uma comunicação flexível e revisão altista das projeções de inflação para os próximos anos.
O BCE voltou a afirmar que está bem-posicionado para lidar com a incerteza, preservando a abordagem dependente dos dados e reunião a reunião. Ao mesmo tempo, reconheceu que o conflito no Oriente Médio segue alimentando pressões inflacionárias e indicou que a inflação deve permanecer acima da meta por período prolongado.
De um modo geral, a leitura do mercado foi de uma mensagem mais dura por parte da autoridade monetária, mesmo sem compromisso explícito com uma trajetória adicional de aperto.
China segue com inflação mais alta por energia e outras pressões de oferta, sem evidência de recuperação da demanda
Na China, os dados de inflação divulgados na terça-feira (8) mostraram aceleração tanto no índice ao produtor (3,8% a/a) quanto no índice ao consumidor (0,8% a/a) de agosto. A alta refletiu principalmente pressões de oferta, com contribuições vindas de energia, sazonalidade em preços de alimentos e condições climáticas adversas, além de itens eletrônicos pressionados pelos investimentos em inteligência artificial.
Petróleo segue como fonte de incerteza global
Enquanto isso, o Oriente Médio continuou no centro das atenções. O conflito entre EUA e Irã segue sem resolução, com percepção de que o choque pode se prolongar e manter o petróleo em patamar elevado. Esse ambiente preserva riscos relevantes tanto para inflação quanto para atividade global.
A persistência de preços mais altos de energia torna mais desafiadora a tarefa dos bancos centrais, ao pressionar índices de preços no curto prazo, inclusive com potencial de impactos secundários mais duradouros, podendo afetar expectativas, e impor custo adicional ao crescimento.
Em paralelo, a semana também teve deterioração da retórica comercial em torno dos EUA, com novas restrições e tarifas no noticiário. Embora esse não tenha sido o tema central dos mercados, o aumento das tensões comerciais adiciona uma camada extra de incerteza para o cenário global.
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