Focus revisa expectativas de inflação e do PIB e Itaú BBA divulga revisão de cenário
No Radar do Mercado: projeções de inflação nos horizontes mais longos seguem desancoradas. Itaú BBA divulga projeções atualizadas para o Brasil e o mundo, além dos possíveis impactos do El Niño na economia brasileira
Por Carolina Sato
Focus: expectativas de inflação seguem pressionadas nos horizontes mais longos
O Banco Central divulgou nesta segunda-feira (31) uma nova edição do Relatório Focus, com leve recuo do IPCA de 2026, mas nova alta nas projeções de inflação para 2027 e em 12 meses à frente. Ao mesmo tempo, o PIB mostrou revisões baixistas adicionais, sobretudo para este ano.
Começando pela inflação, para 2026, a mediana das projeções para o IPCA oscilou levemente na margem, passando de 5,02% para 5,01%. No entanto, a projeção para a inflação 12 meses à frente avançou de 4,42% para 4,53%, ultrapassando assim o limite superior da banda de tolerância da meta de inflação de 3%, com intervalo de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Para 2027, a projeção de inflação também subiu, de 4,25% para 4,28%, enquanto a de 2028 permaneceu estável em 3,80%.
Do lado da atividade, a projeção para o PIB deste ano recuou novamente, passando de 1,95% para 1,92%. Já para 2027 e 2028, houve manutenção das expectativas de 1,50% e 1,98%, respectivamente.
No câmbio, a estimativa para 2026 tem permanecido estável em R$/US$ 5,20 nas últimas divulgações. Enquanto isso, para 2027 e 2028, as expectativas seguem em R$/US$ 5,30.
Já em relação à Selic, as expectativas permaneceram estáveis novamente nesta divulgação do Focus. O mercado projeta uma taxa básica de juros de 13,75% ao final de 2026, o que implicaria em mais um corte de 0,25 ponto percentual neste ano, além de uma taxa terminal de 12,00% em 2027 e 10,50% em 2028. Após a última reunião do Copom, essa estabilidade sugere manutenção de uma leitura de juros elevados por período prolongado, com possíveis implicações para a curva local e demais ativos domésticos.
Visão de Investimentos: ainda que a inflação corrente tenha reforçado o quadro de desinflação gradual, as expectativas para prazos mais longos continuam desancoradas, ou seja, acima da meta de inflação. Dessa forma, a política monetária deve permanecer cautelosa, dependente dos dados e do balanço de riscos para o cenário à frente. Diante disso, mantemos nossa alocação neutra em prefixado, juro real e bolsa brasileira, prontos para revisitar nossa posição caso o balanço de riscos mude de forma relevante.
Revisão de Cenário do Itaú BBA - Local
Também nesta segunda-feira (31), a equipe de macroeconomia do Itaú BBA divulgou a revisão de suas projeções econômicas. A equipe seguiu projetando taxa de câmbio de R$/US$ 5,30 em 2026 e R$/US$ 5,50 ao final de 2027. Segundo os economistas, a expectativa de elevação das taxas de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) neste ano e as incertezas domésticas foram os responsáveis por limitar a expectativa de cenários mais benignos para o real.
Em relação à atividade econômica, o Itaú BBA seguiu projetando um crescimento do PIB de 1,9% em 2026, com expectativa de desaceleração moderada da atividade nos próximos trimestres. Já para 2027, a expectativa foi mantida em 1,5%, mas com destaque para o viés de baixa para a projeção, diante dos efeitos defasado e cumulativos da política monetária contracionista. No mercado de trabalho, as estimativas seguiram de uma taxa de desemprego de 5,7% este ano e 6,1% em 2027.
Já na parte de inflação, a equipe de macroeconomia do IBBA manteve a projeção de 5,1% para o IPCA de 2026 e 4,4% em 2027. Para este ano, os dados correntes indicam uma janela positiva de inflação no curto prazo, com núcleos dentro do intervalo da meta sustentados pelos industriais, mas com alimentos e serviços reacelerando no 4º trimestre. Já para o ano que vem, os riscos seguem assimétricos para cima, puxados pela incerteza sobre o El Niño e pela eventual aprovação do fim da escala 6x1.
Por fim, a equipe seguiu projetando taxa Selic terminal em 13,75% ao final de 2026. Segundos os economistas do BBA, a combinação de moderação na atividade e inflação mais benigna abre espaço para a continuidade da flexibilização monetária. Por outro lado, o câmbio mais depreciado e os riscos para a inflação nos horizontes mais longos recomendam cautela, reforçando a necessidade de preserva opcionalidade para os próximos passos como elemento central da estratégia do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
Revisão de Cenário do Itaú BBA - Internacional
Na revisão de cenário global também divulgada nesta segunda-feira (31), o Itaú BBA segue projetando um cenário de petróleo em US$ 80/barril do tipo Brent no fim de 2026 e em US$ 75/barril no fim de 2027, ainda que reconheça que há risco de preços elevados por mais tempo dado que o conflito entre EUA e Irã segue sem resolução no curto prazo e o fluxo de navios pelo estreito de Ormuz segue reduzido.
Além disso, nos EUA, ainda que a atividade continue forte, enquanto os dados recentes de emprego e inflação mais recentes foram mais moderados, o discurso mais duro de Kevin Warsh, presidente do Fed, em Jackson Hole na sexta-feira passada (28), levou os economistas do BBA a projetarem duas altas de juros ainda este ano.
Enquanto isso, na Europa, a expectativa é de mais uma alta de juros, para 2,50% ao ano, em setembro e que esse patamar seja mantido ao longo de 2027, ante 2,00% projetado anteriormente. Já na China, a projeção de crescimento de 4,7% este ano segue factível com a aceleração da entrega de estímulos fiscais já prometidos.
Por fim, na América Latina, o Itaú BBA explica que as perspectivas de crescimento seguem bastante heterogêneas. Enquanto Peru e Colômbia vem apresentando desempenho superior, Chila e Argentina continuam enfrentando demanda domésticas fraca. Na parte de inflação, a dinâmica vem melhorando gradualmente na maioria dos países da região, embora o El Niño continue representando um desafio importante.
Confira todos os detalhes de cada um dos países no relatório na íntegra.
El Niño: os impactos na economia brasileira
Por falar em El Niño, o Itaú BBA também divulgou na semana passada um relatório com os possíveis impactos do fenômeno na economia brasileira. O fenômeno deste ano pode estar entre os mais intensos das últimas décadas e tende a alterar o regime de chuvas nas principais regiões produtoras de commodities do país, criando um ambiente menos favorável para parte da produção agrícola brasileira.
Segundo a equipe de macroeconomia do Itaú BBA, as alterações climáticas associadas ao El Niño devem pressionar inicialmente os preços dos alimentos in natura, com impacto mais forte no final de 2026 e contribuição próxima de 0,30 p.p. para o IPCA deste ano. Além disso, um episódio suficientemente intenso pode resultar em um PIB agropecuário negativo em 2027.
O relatório complementa a visão já apresentada pelo nosso Head Portfolio Manager de Investment Solutions, Thiago Mateus, no vídeo “Análise Semanal” divulgado para os clientes Private na segunda-feira passada (24).
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