Resumo da Semana: IPCA-15 mais benigno e PCE reforçam moderação inflacionária
No Radar do Mercado: a semana foi marcada por leituras de inflação mais favoráveis no Brasil e nos EUA, compatíveis com um cenário de moderação das pressões dos últimos meses
Por Carolina Sato e Victor Camacho
IPCA-15 vem abaixo do esperado, mas serviços ainda pedem atenção
O principal destaque da semana no Brasil ficou por conta do IPCA-15 de agosto, que registrou deflação de 0,40%, abaixo do esperado, com desaceleração da inflação acumulada em 12 meses para 4,24%.
O movimento foi puxado principalmente por habitação, com queda em energia elétrica residencial refletindo a incorporação do Bônus de Itaipu, além de recuos em transportes e alimentação.
A composição também veio melhor. Os bens industriais seguiram em desaceleração, inclusive em categorias mais sensíveis aos preços internacionais, enquanto os principais núcleos de inflação acompanhados pelo Banco Central mostraram melhora. A leitura reforça a percepção de desinflação gradual em curso.
O principal ponto de atenção continua sendo serviços. O núcleo desse segmento avançou acima do esperado, sugerindo que a inflação mais ligada à demanda doméstica e ao mercado de trabalho ainda apresenta alguma resistência.
De toda forma, para a política monetária, as últimas leituras de inflação contribuem para a estratégia de calibração gradual, ainda que sujeita à evolução dos dados.
Focus mantém pressão nas expectativas mais longas
A nova leitura do Relatório Focus divulgada na segunda-feira, por sua vez, trouxe poucas mudanças no curto prazo, mas preservou a mensagem para a política monetária.
A projeção para o IPCA de 2026 permaneceu em 5,02%, enquanto a expectativa para os próximos 12 meses subiu novamente. Para 2027, houve nova alta marginal, e 2028 permaneceu estável, ainda acima da meta.
Do lado da atividade, a estimativa para o PIB de 2026 foi revisada para baixo, enquanto 2027 ficou estável e 2028 avançou. As projeções para o câmbio mudaram pouco, e as estimativas para a Selic permaneceram inalteradas em todo o horizonte relevante, com o mercado ainda incorporando mais um corte na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
Em suma, ainda que a inflação corrente tenha mostrado melhora, as expectativas seguem desancoradas em horizontes mais longos, o que tende a manter a postura cautelosa por parte do Banco Central.
Mercado de trabalho segue apertado, mas com sinais iniciais de estabilização
Também na agenda doméstica, mas na quinta-feira, o IBGE divulgou que a taxa de desemprego caiu para 5,3% no trimestre encerrado em julho, em linha com o esperado. Na série dessazonalizada, o movimento foi praticamente estável na margem.
A leitura qualitativa mostrou avanço tanto da população ocupada quanto da força de trabalho, acompanhado por nova alta da taxa de participação. Na renda, os salários reais apresentaram alguma recomposição após meses mais fracos, enquanto a massa salarial também reagiu marginalmente.
O conjunto dos dados sugere um mercado de trabalho ainda resiliente, mas já com sinais que podem ser consistentes com uma desaceleração gradual da atividade.
PCE confirma moderação da inflação nos EUA
Nos EUA, a divulgação do Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês) de julho reforçou a avaliação de moderação inflacionária. O núcleo do indicador, medida mais acompanhada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), avançou 0,25% no mês, praticamente em linha com as expectativas.
A composição foi relativamente equilibrada. Houve melhora em algumas categorias de bens que haviam pressionado a inflação no início do ano, enquanto os serviços avançaram um pouco mais em segmentos como saúde e transportes. Ainda assim, a leitura não trouxe sinais de deterioração mais ampla, com maior pressão concentrada em componentes mais voláteis.
As revisões altistas marginais para meses anteriores deixaram o segundo trimestre um pouco menos favorável, mas sem alterar a narrativa principal. O conjunto da divulgação sugere menor pressão por ação imediata do Fed, mantendo o foco na sequência dos próximos dados de inflação e emprego.
PIB revisado reforça resiliência da demanda americana
Também foi divulgada nesta semana a revisão do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no segundo trimestre, mantendo o crescimento de 1,5% em termos anualizados, mas trazendo uma composição mais forte. Houve revisões para cima no consumo e no investimento não residencial, reforçando a leitura de uma demanda doméstica robusta, apesar dos choques recentes.
Em conjunto, inflação mais comportada e atividade resiliente mantêm o Fed em posição de espera. A leitura da semana foi de menor urgência no curto prazo, mas a incerteza segue enquanto não houver confirmação adicional de desaceleração consistente nos preços e no mercado de trabalho.
Geopolítica e tarifas seguem no radar
No pano de fundo internacional, o Oriente Médio continuou exigindo atenção, embora a semana tenha trazido sinais de alguma descompressão. Notícias sobre propostas de acordo e sobre a operação parcial de rotas alternativas contribuíram para queda dos preços de petróleo na semana.
Ainda assim, a leitura segue cercada de incerteza. As negociações permanecem frágeis, e sinais de melhora semelhantes já haviam surgido antes sem produzir avanços duradouros. Por isso, a geopolítica continua como uma fonte importante de assimetria para inflação global, sobretudo pelo canal de energia.
Também seguiu no radar o endurecimento do discurso comercial nos EUA, com noticiário sobre possíveis novas tarifas, inclusive sobre semicondutores e produtos chineses. A incerteza segue, mas o tema deve continuar com destaque dado seu potencial de pressionar inflação, comércio internacional e sentimento de mercado à frente.
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