Resumo da Semana: Focus piora na margem e Fed segue dependente dos dados
No Radar do Mercado: a semana foi marcada por nova piora das expectativas de inflação no Brasil, enquanto nos EUA, a ata do Fed manteve o foco na evolução dos dados. No cenário global, o petróleo segue pressionado e a China mantém uma postura de espera
Por Carolina Sato e Victor Camacho
Focus mostra expectativas de inflação desancoradas e nova revisão baixista para a atividade econômica no Brasil
O principal destaque doméstico ficou por conta da nova leitura do Relatório Focus, que voltou a trazer sinais pouco confortáveis para a dinâmica das expectativas. A projeção para o IPCA de 2026 permaneceu inalterada, mas a inflação em 12 meses à frente subiu e a estimativa para 2027 avançou novamente. Já a projeção para 2028 ficou estável, ainda em patamar elevado.
Do lado da atividade, o Focus também mostrou revisões para baixo no crescimento de 2027 e 2028, enquanto a estimativa para 2026 ficou estável pouco abaixo de 2%. Em conjunto, os dados sugerem uma economia que tende a perder tração à frente, mas sem gerar, por ora, alívio suficiente na frente inflacionária. Nesse contexto, as projeções para a Selic permaneceram inalteradas em todo o horizonte relevante, preservando a mensagem de juros em campo restritivo por período prolongado.
Ata do Fed mantém viés duro, mas dados recentes aliviam o curto prazo
Nos EUA, a divulgação da ata da última reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) foi o principal evento da semana. O documento mostrou um comitê ainda relativamente inclinado ao aperto, com diversos participantes defendendo juros mais altos e condições financeiras mais restritivas.
Ao mesmo tempo, a ata também indicou que a maioria dos membros espera uma desaceleração da inflação, enquanto reforçou que a trajetória da política monetária segue dependente da evolução dos dados. Esse ponto ganhou relevância porque, desde a reunião, os dados vieram em direção mais benigna, com sinais de menor pressão tanto no mercado de trabalho quanto nos índices de preços. Assim, embora o documento preserve um tom duro, a avaliação pode ter sido afetada pela evolução recente dos indicadores.
Na prática, a combinação entre tom cauteloso e dados mais favoráveis mantém o Fed em posição de espera. O foco deve permanecer na interação entre inflação, atividade e condições financeiras, sem convicção suficiente, por ora, para uma inflexão mais branda, mas também com menos argumentos para alta no curtíssimo prazo.
Geopolítica mantém petróleo no centro da leitura global
O pano de fundo internacional continuou dominado pelas tensões no Oriente Médio. A retórica entre os lados envolvidos seguiu dura, e o ambiente permaneceu volátil, com o risco de reação do Irã diante do aumento das pressões econômicas e financeiras. Esse quadro preserva a sensibilidade do mercado de energia ao noticiário geopolítico.
Ao mesmo tempo, houve alguns fatores de compensação pelo lado da oferta. Alguma melhora dos fluxos pelo estreito de Bab el-Mandeb e notícias sobre a criação de um corredor alternativo no estreito de Ormuz para transporte de petróleo ajudaram, ainda que o segundo não possa ser identificado nos dados. Ainda assim, o petróleo continuou em nível pressionado, refletindo um mercado que segue atribuindo prêmio relevante ao risco geopolítico.
China mantém juros e reforça estratégia gradual
Na Ásia, o Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) manteve os juros inalterados, em linha com a percepção de que não há urgência para novos estímulos monetários. A postura reforça a estratégia de priorizar a implementação das medidas já anunciadas, com maior ênfase sobre o impulso vindo da política econômica do que sobre novos cortes de juros.
Essa decisão veio em um contexto de dados mais fracos de atividade em julho, com desaceleração em produção industrial, vendas no varejo e investimentos, além da continuidade da fraqueza no setor imobiliário. O quadro segue apontando para uma economia sustentada pelo setor externo, mas com demanda doméstica menos convincente.
Em conjunto, a leitura é de crescimento ainda desigual, sem mudança relevante de direção na condução da política econômica. À frente, o foco deve permanecer em saber se a aceleração da implementação dos estímulos será suficiente para sustentar a atividade no segundo semestre ou se haverá necessidade de medidas adicionais mais adiante.
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