Resumo da Semana: CPI reduz pressão sobre o Fed e IPCA vem acima do esperado

No Radar do Mercado: semana foi marcada pelas leituras de inflação nos EUA e no Brasil. Na agenda doméstica, Ata do Copom e indicadores de atividade econômica seguem apontando desaceleração gradual

Por Carolina Sato e Victor Camacho

6 minutos de leitura

Ata do Copom reforça serenidade e mantém espaço para continuidade do ciclo

Nesta semana, tivemos a divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). O documento voltou a reconhecer que os efeitos da política monetária contracionista sobre a atividade vêm se acumulando gradualmente, ao mesmo tempo em que reiterou que a inflação ainda segue pressionada, em parte pela demanda, exigindo manutenção de caráter restritivo.

A autoridade monetária manteve a mensagem de serenidade e cautela, evitando sinalizar próximos passos. O Banco Central reiterou que a magnitude do ciclo de calibração dependerá da evolução do cenário, de forma a preservar a restrição necessária para a convergência da inflação à meta.

Dessa forma, a nosso ver, o BC manteve a porta aberta para novo corte de juros na próxima reunião, desde que os dados continuem compatíveis com esse diagnóstico. A leitura reforça um Banco Central ainda dependente da evolução da inflação, das expectativas e do ambiente externo, mas um pouco mais confortável com a desaceleração em curso da economia.

Inflação e atividade no Brasil sugerem moderação

O IPCA de julho (0,07%) também foi divulgado nesta semana e veio acima do esperado, com desaceleração do acumulado em 12 meses. A abertura mostrou pressão maior em habitação, puxada principalmente por energia elétrica residencial, enquanto alimentos seguiram em queda. A surpresa para cima ficou concentrada em serviços, ao passo que bens industriais mostraram comportamento mais benigno.

Apesar dessa composição qualitativamente um pouco pior do que a observada no mês anterior, as medidas de núcleo permaneceram em níveis compatíveis com um quadro relativamente comportado. Isso significa que a leitura não altera de forma relevante o diagnóstico inflacionário.

Na atividade, os dados de serviços e varejo reforçaram a leitura de desaceleração gradual. O volume de serviços mostrou estabilidade na margem, com composição heterogênea entre os segmentos, enquanto o varejo avançou 0,5%. Já no comércio ampliado, a leitura seguiu mais fraca (-1,0%).

Em conjunto, os indicadores sugerem uma economia que perde tração de forma moderada, com sinais mistos entre os setores, em linha com a avaliação mais recente do Banco Central.

Focus segue mostrando expectativas elevadas nos horizontes mais longos

Nesta semana também, uma nova leitura do Relatório Focus trouxe manutenção do cenário para a maior parte das variáveis. A projeção para o IPCA de 2026 recuou marginalmente, enquanto a expectativa para o IPCA em 12 meses à frente avançou. Já as projeções para 2027 e 2028 permaneceram inalteradas, em níveis elevados.

Esse comportamento segue relevante para o Banco Central, que tem reforçado que a política monetária deve continuar restritiva para levar a uma convergência da inflação à meta. Ainda que o quadro de curto prazo tenha se tornado um pouco mais favorável, a persistência de expectativas acima da meta nos anos seguintes continua impondo algum limite para a flexibilização monetária à frente.

Do lado de atividade e juros, as mudanças foram pequenas. O PIB projetado para 2026 e 2027 recuou levemente, enquanto as estimativas para a Selic permaneceram inalteradas, preservando a leitura de juros altos por período prolongado, ainda que com espaço para calibração marginal da taxa de juros.

CPI reforça moderação da inflação e reduz a urgência para o Fed

Nos EUA, o principal evento da semana foi a divulgação do Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) de julho (que avançou 0,1% no mês). O indicador veio em linha com as expectativas, tanto no índice cheio quanto no núcleo, mas a composição foi considerada ligeiramente melhor, com surpresa baixista em serviços e movimentos de pressão mais concentrados em alguns itens específicos.

O componente de moradia seguiu compatível com um processo gradual de desinflação, enquanto itens como passagens aéreas, serviços médicos e categorias ligadas à tecnologia mostraram aceleração pontual. Ainda assim, esses movimentos não pareceram suficientes para alterar a leitura predominante de moderação inflacionária na margem.

O dado também indicou uma projeção mais benigna para o núcleo do Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês), medida acompanhada mais de perto pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA). Com isso, diminuiu a pressão por uma postura mais dura no curto prazo e ganhou força a leitura de manutenção dos juros, a menos que os próximos dados de inflação voltem a surpreender para cima.

Mercados voltam a reduzir prêmio para aperto adicional nos EUA

A combinação entre payroll mais fraco, CPI em linha e composição relativamente melhor contribuiu para moderação adicional da percepção de necessidade de aperto monetário nos EUA. O foco, que havia migrado de forma mais intensa para a inflação, voltou a incorporar também uma perda de fôlego do mercado de trabalho, ainda que sem caracterizar deterioração mais acentuada.

Esse reequilíbrio tende a ter implicações relevantes para juros globais, dólar e ativos mais sensíveis à política monetária. A leitura da semana foi de menor urgência para o Fed, embora sem uma virada para um viés acomodatício. Em outras palavras, a discussão deixa de ser sobre reação imediata e volta a depender mais da consistência dos próximos dados.

À frente, a atenção deve permanecer na confirmação dessa trajetória por meio dos demais índices de preços e na interação entre inflação, emprego e condições financeiras. Por ora, o ambiente ficou menos pressionado do que parecia há algumas semanas, mas ainda longe de oferecer conforto pleno ao banco central americano.

Petróleo segue no radar em ambiente de incerteza geopolítica

No pano de fundo internacional, o Oriente Médio continuou exigindo atenção. As negociações seguem com poucos avanços concretos, e o fluxo pelo Estreito de Ormuz permaneceu muito baixo ao longo da semana. Esse quadro mantém o mercado de petróleo apertado e preserva um vetor potencial de pressão inflacionária global. Ainda que o foco imediato dos mercados tenha migrado para os dados de inflação e para a política monetária, a geopolítica continua funcionando como uma fonte importante de assimetria para o cenário.

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