IPCA mostra surpresa baixista em junho
No Radar do Mercado: IPCA abaixo do esperado reforça sinais de alívio para a inflação no Brasil no curto prazo, enquanto Ata do Fed detalhou divisão no comitê
Por Carolina Sato e Victor Camacho
O IBGE divulgou na manhã desta sexta-feira, 10, o IPCA de junho, com avanço de 0,16%, abaixo do esperado pelo mercado (0,32%) e da leitura anterior (0,58%). No acumulado em 12 meses, o índice desacelerou para 4,64%, ante 4,72% no período anterior. A surpresa foi puxada principalmente por alimentos, mas serviços e industriais também vieram mais fracos.
Na composição do resultado, “Habitação” subiu 0,63% e teve o maior impacto no índice, com energia elétrica residencial avançando 1,53%, principal impacto individual na leitura do mês. Por outro lado, o grupo “Alimentação e bebidas” registrou deflação de 0,24% e exerceu o maior impacto negativo, após altas nos meses anteriores. A principal surpresa veio de alimentos, com queda disseminada. Também merece destaque a melhor composição, com as medidas de núcleo de serviços e industriais desacelerando frente a leituras anteriores, surpreendendo para baixo frente às expectativas.
Assim, o dado divulgado hoje reforça uma leitura mais benigna para a inflação de curto prazo e ajuda a conter parte das pressões mais altistas sobre as expectativas, ainda que permaneçam riscos para a inflação de serviços à frente, conforme já mencionado pelo Banco Central. A autoridade monetária tem destacado riscos altistas, incluindo uma maior resiliência na inflação de serviços em função de um hiato do produto mais positivo.
Focus traz primeiro alívio para a inflação de 2026 após sequência de altas
Na segunda-feira (06/07), uma nova edição do Relatório Focus trouxe a primeira revisão para baixo da expectativa de inflação para 2026 após várias semanas de altas. A projeção para o IPCA recuou de 5,33% para 5,30%, embora siga acima do teto do intervalo de tolerância em torno da meta de inflação de 3%.
Por outro lado, as estimativas para 2027 voltaram a subir marginalmente, enquanto as projeções para 2028 permaneceram estáveis. O movimento sugere alguma melhora nas perspectivas de curto prazo, reforçada pelo resultado do IPCA de junho, mas ainda sem uma convergência mais clara das expectativas para a meta.
Ao mesmo tempo, as projeções para a taxa Selic permaneceram inalteradas em todos os horizontes analisados: 14,00% em 2026, 12,00% em 2027 e 10,50% em 2028.
Ata do Fed detalha divisão interna, mas reforça dependência dos dados
Passando para os EUA, ainda essa semana, a divulgação da ata da reunião de junho do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) aprofundou a leitura de um comitê mais dividido, mas ainda sem trajetória pré-definida para os juros. O documento mostrou avaliação de atividade em ritmo sólido, mercado de trabalho estável e inflação ainda elevada, em um ambiente de alta incerteza.
O principal ponto foi a explicitação de desconforto de parte dos membros com o nível atual de restrição monetária. Embora todos tenham apoiado a manutenção da taxa na reunião, alguns já viam argumentos para alta, enquanto vários indicaram que a política atual não parece ser restritiva. Por outro lado, o documento mostrou divisão entre um cenário em que a inflação desacelera e permite manutenção ou eventual corte dos juros, e outro em que a persistência inflacionária exigiria aperto adicional.
Para as próximas reuniões, a ata reforça que não há trajetória pré-definida e que a decisão seguirá dependente dos dados. Em relação ao comunicado, o documento trouxe poucas novidades, mas acrescentou nuances importantes ao explicitar maior desconforto de parte do comitê com o nível corrente de restrição monetária e uma disposição relevante de apertar mais a política caso a inflação não volte a desacelerar em breve.
Fed divulga mais detalhes das forças-tarefa anunciadas na última reunião
Na tarde de ontem, o Federal Reserve divulgou os nomes dos membros das cinco forças-tarefa que examinarão questões-chave para política monetária dos EUA. As forças-tarefa foram anunciadas na conferência de imprensa da reunião de julho e são parte da iniciativa de reformular o Banco Central.
Os grupos, que atuarão de forma independente, com a missão de seguir as evidências, fornecer feedback sincero e apresentar conclusões rigorosas, contam com profissionais reconhecidos e bem avaliados, inclusive o ex-presidente do Banco Central do Brasil, Armínio Fraga. Os objetivos dos cinco grupos estão brevemente descritos abaixo:
- Comunicação: Revisar como o Fed comunica suas deliberações e decisões em ambientes de incerteza.
- Balanço Patrimonial: Examinar os custos, benefícios e implicações institucionais do atual regime de gestão do balanço do Fed.
- Dados: Melhorar a qualidade e a tempestividade dos indicadores que embasam as decisões.
- Produtividade e Emprego: Avaliar os impactos das novas tecnologias, buscando aprimorar as decisões.
- Análise da Inflação: Reavaliar como o Fed compreende e responde aos motores da inflação.
O anúncio não oferece uma indicação clara, ainda que os nomes selecionados reduzam receios de politização das discussões. Os resultados devem sair em direção ao fim do ano, o que estica o horizonte para eventuais mudanças mais relevantes na política monetária. Além disso, dado o escopo amplo dos mandatos e o curto prazo para a conclusão dos trabalhos, é provável que as recomendações sirvam como pontos de partida para deliberações do comitê.
Petróleo segue no radar em meio à deterioração do noticiário
O noticiário geopolítico voltou a testar o alívio observado anteriormente. Sem evolução das conversas entre EUA e Irã e com retomada de ataques pontuais, houve maior pressão sobre preços de petróleo na semana, ainda que limitada quando comparada ao cenário pré-acordo.
A leitura dominante entre as consultorias é de uma escalada limitada, que preserva o acordo inicial entre os países. O risco segue presente, especialmente diante da sensibilidade do fluxo de energia na região, mas o impacto continuou limitado em comparação com o pico de tensão observado anteriormente.
Isso ajuda a explicar por que o debate global permaneceu mais centrado na reação dos bancos centrais diante de uma inflação que melhora lentamente e de uma atividade desigual entre regiões. O alívio nos preços de energia continua relevante para a fotografia de curto prazo, mas não é suficiente, por si só, para mudar de forma ampla a condução da política monetária.
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