Cessar-fogo sem paz: a narrativa política e o novo piso do petróleo

No Radar do Mercado: EUA e Irã anunciam cessar-fogo de duas semanas, mas falta de uma solução duradoura levanta dúvidas sobre onde preço do barril vai se estabilizar

Por Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos

4 minutos de leitura

Cessar-fogo não é paz. Neste caso, talvez nem estabilização seja ainda. Na noite desta terça-feira, 7, espirava o prazo dado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para que o Irã aceitasse os termos de um acordo de paz. O acordo não veio. Mas antes de o prazo espirar, após um dia repleto de ameaças de lado a lado, um cessar-fogo de duas semanas foi anunciado pelas duas partes do confronto.

O anúncio, no entanto, parece menos o início de uma solução equilibrada e mais uma saída de canto: suficiente para retirar da mesa o pior desfecho possível, mas insuficiente para devolver normalidade à região. O mercado reagiria bem de qualquer forma, quase por definição. A dúvida relevante é outra: essa pausa é executável e, sobretudo, persistente?

Esse é o ponto central da leitura atual. Desde esta manhã de quarta-feira, 8, Washington tenta organizar a narrativa de que venceu. Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA, falou em “decisive military victory”, numa tentativa de transformar uma saída improvisada em prova de força ex post. Mas países do Golfo continuam relatando ataques, e Israel já deixou claro que a trégua não resolve todas as frentes do conflito. Isso reforça exatamente o que discutíamos na última atualização que trouxemos para nossos clientes: Trump já não tinha como agradar simultaneamente o eixo militar, o eixo político, o mercado e os aliados regionais. Pelo visto, mercados e preocupações políticas prevaleceram.

O que o cessar-fogo efetivamente faz é reduzir a cauda de um conflito longo e muito mais destrutivo. Com essa cauda menor, o mercado tira prêmio de risco: o petróleo devolve parte importante da alta, as bolsas sobem e as taxas recuam. Mas a questão-chave não é o tamanho do alívio inicial. É onde o preço do barril de petróleo se estabiliza.

E essa resposta não virá de um comunicado político, mas do mundo físico. O que importa agora é o fluxo no Estreito de Hormuz e a velocidade de retomada das produções interrompidas. Se o tráfego voltar de forma confiável e a oferta reabrir rapidamente, o barril pode seguir cedendo. Se os ataques persistirem, ou se armadores e seguradoras continuarem cautelosos, o petróleo pode encontrar um novo piso bem acima do pré-guerra.

No momento em que escrevo esta análise, o Ibovespa renova máxima histórica e se aproxima dos 192 mil pontos, o câmbio testa R$/US$ 5,08, e apenas o mercado de juros reage com mais timidez. A curva devolve parte relevante do choque, mas ainda sem recompor integralmente o espaço para cortes que parecia existir antes. Antes do conflito, a precificação era de um ciclo total de cortes entre 250 e 300 bps; no pior momento, chegou a trabalhar com menos de 100 bps; agora, está em torno de 200 bps.

Esse movimento faz sentido. O Brasil é beneficiado, na margem, por um petróleo mais alto via exportações, saldo comercial e arrecadação, mas paga a conta pelo canal da inflação, especialmente de combustíveis, em um país ainda parcialmente dependente de diesel importado. Por isso, bolsa e câmbio respondem mais rápido do que a curva de juros. No fim, a principal variável continua sendo a mesma: onde o petróleo vai parar? É daí que sairão, em sequência, as implicações para inflação e, depois, para os juros.

*Texto escrito pelo estrategista-chefe de investimentos do Itaú, Thomas Wu, às 12h desta quarta-feira, 8 de abril de 2026.

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