Revisão de cenário do Itaú BBA: menos cortes de juros e mais inflação

No Radar do Mercado: Itaú BBA revisa cenários para o mercado local e internacional. Confira também nossa análise sobre as decisões de política monetária na Europa e no Japão

Por Victor Camacho

7 minutos de leitura

Revisão de Cenário do Itaú BBA - Local

A equipe de macroeconomia do Itaú BBA divulgou nesta quinta-feira, 30, uma revisão de suas projeções econômicas para o Brasil e o mundo. Entre os destaques, a equipe entende que os fundamentos para a taxa de câmbio estão mais construtivos à frente, com um dólar estruturalmente fraco e um ambiente mais positivo para moedas da América Latina. Diante disso, o BBA decidiu revisar sua projeção para 2026 de R$/US$ 5,40 para R$/US$ 5,15, e para 2027, de R$/US$ 5,60 para R$/US$ 5,35.

Apesar da revisão para baixo no câmbio, a equipe do Itaú BBA revisou para cima as projeções de inflação deste e do próximo ano, e ainda manteve o balanço de riscos altista nos dois horizontes. Segundo o relatório, a revisão para 2026 de 4,5% para 5,2% reflete leituras de curto prazo mais pressionadas, sobretudo por combustíveis, e por uma inflação de alimentos mais elevada, em função dos efeitos do El Niño sobre produtos in natura. Já para 2027, a revisão de 4,1% para 4,3% incorpora uma maior inércia inflacionária do ano anterior.

Com expectativas de inflação mais alta, o Itaú BBA também revisou para cima sua expectativa para a Selic deste ano diante de uma nova piora do cenário inflacionário, de nova rodada de deterioração de expectativas e piora do balanço de riscos. Agora, a equipe de macroeconomia do banco espera que a taxa básica de juros chegue ao final de 2026 em 13,25%, 0,25 ponto percentual acima da expectativa anterior, e ao final de 2027 em 12,25%, ante 12,00%.

Já em relação ao PIB e ao mercado de trabalho, a equipe manteve as projeções anteriores. Para 2026, a expectativa é de crescimento de 1,9%, com viés de alta, e taxa de desemprego de 5,7%. Para 2027, a expectativa é de crescimento de 1,7% e desemprego de 6,0%.

Confira o relatório na íntegra para mais detalhes.

Revisão de Cenário do Itaú BBA - Internacional

Na revisão de cenário global, as incertezas em torno do conflito no Oriente Médio seguem impactando as perspectivas econômicas. Na visão do Itaú BBA, os países envolvidos mostram pouca disposição para escalar o conflito, mas também pouca vontade de terminá-lo. Esse impasse cria um equilíbrio instável na região e deixa o caminho para a normalização do fluxo de navios pelo estreito de Ormuz tortuoso, o que implica em preços de petróleo mais elevados. Diante disso, a equipe revisou sua projeção do preço do barril ao final do ano de US$ 75 para US$ 85.

Diante disso, nos EUA, a equipe do Itaú BBA enxerga uma atividade sólida e com menores riscos de baixa no mercado de trabalho, projetando um crescimento da economia de 2,5% no primeiro trimestre e mantendo a estimativa de 2,6% no ano. Com isso em mente, e diante dos riscos de alta para a inflação, os economistas projetam que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) não deve cortar juros neste ano, mesmo com a troca de comando do atual presidente Jerome Powell pelo indicado do presidente Donald Trump, Kevin Warsh.

Na Europa, considerando o cenário base do Itaú BBA de resolução do conflito no Oriente Médio até o fim de maio, e consequente desescalada do preço do petróleo para os já citados US$ 85 por barril, a equipe projeta, por ora, que os juros seguirão parados em 2,0%. No entanto, caso o preço do petróleo fique próximo de US$ 120 por barril, a equipe estima que, no mínimo, duas altas de juros serão necessárias. Com juros parados, a estimativa de crescimento pra região continua em 0,9%. Já para o euro, a equipe revisou a projeção de 1,16 euro por dólar para 1,18 ao final de 2026.

Na China, a equipe do BBA indica que o crescimento segue sustentado por exportações e, com isso, não enxerga necessidade de estímulos adicionais, nesse momento. O time estima que o crescimento do PIB foi de 5,0% a/a no primeiro trimestre com a parte de manufatura e exportações seguindo como os principais motores da atividade. À frente, o BBA destaca que é importante monitorar uma possível desaceleração da economia global com o choque do petróleo, que poderia aumentar a necessidade de estímulos para a demanda doméstica, mas, por ora, mantém a projeção de crescimento em 4,7% em 2026 e em 4,5% para 2027.

Por fim, na América Latina, na opinião da equipe de macroeconomia do Itaú BBA, as perspectivas de crescimento em 2026 seguem desiguais, refletindo fundamentos domésticos distintos e diferentes graus de exposição ao ambiente externo. O México segue sendo o principal destaque negativo, com a projeção de crescimento do PIB neste ano sendo revisada de 1,5% para 1,1%. Já a Argentina se destaca positivamente, com o PIB projetado para crescer 3,5%.

Confira todos os detalhes no relatório na íntegra.

Bancos centrais mantém juros parados, mas passam mensagens duras sobre o futuro

Além da superquarta, em que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e o Banco Central do Brasil anunciaram suas decisões de política monetária, a semana também foi marcada por decisões do Banco Central Europeu (BCE), do Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) e do Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês).

Começando pela Europa, após a divulgação do PIB do primeiro trimestre abaixo da expectativa e de uma inflação que acelerou para 3% na variação anual anunciados na manhã desta quinta-feira, o Banco Central Europeu anunciou sua decisão de manter os juros parados em 2,0% ao ano novamente e reforçou a intenção de adotar uma abordagem dependente da evolução dos dados à frente. Em coletiva de imprensa após a decisão, a presidente do BCE, Christine Lagarde, afirmou que os riscos para o cenário de inflação são predominantemente de alta e que aumentos de juros foram debatidos na reunião, oferecendo um tom mais duro para o mercado.

O Banco Central da Inglaterra também seguiu caminho similar. A taxa de juros foi mantida, em 3,75% ao ano, mas com algum viés de aperto à frente e um voto dissidente a favor de alta dos juros já nesta reunião.

Enquanto isso, no Japão, a decisão do Banco Central foi de manter os juros em 0,75%, em linha com as expectativas, mas o tom do comunicado da decisão também foi mais inclinado ao aperto monetário, com projeções de inflação acima do consenso e três membros divergindo em favor de um aumento imediato dos juros.

Antes de finalizar, vale mencionar que, também na manhã de hoje, mas nos EUA, foi divulgado o PIB do primeiro trimestre, com um crescimento abaixo da expectativa do mercado, mas com uma demanda doméstica mais forte que a projeção. O consumo e os investimentos relacionados à inteligência artificial, por sua vez, seguiram mostrando força. Já o núcleo do PCE, medida de inflação referência para o Fed, também foi divulgado e subiu de 3,0 para 3,2 na variação anual. Diante disso, reforçamos a leitura feita após a decisão do Fed de ontem: o contexto de atividade sólida e inflação distante da meta indica que o banco central não possui espaço para adicional redução dos juros por ora.

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