Resumo da Semana: Fed mantém juros e inflação mais benigna reforça debate no Brasil
No Radar do Mercado: A semana foi marcada pela decisão do Federal Reserve e por sinais de resiliência da economia dos Estados Unidos, enquanto o IPCA-15 trouxe uma leitura mais favorável para a inflação no Brasil. Confira também a revisão de cenário local e global do Itaú BBA
Por Carolina Sato e Victor Camacho
Fed mantém juros e preserva postura dependente dos dados
O principal tema da semana no exterior foi a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), que manteve a taxa de juros no intervalo de 3,5% a 3,75%, em linha com o esperado. O comunicado trouxe poucas alterações em relação à reunião anterior e continuou descrevendo uma economia em expansão sólida, com mercado de trabalho estável e inflação ainda elevada frente à meta de 2%.
O ponto de maior repercussão veio do dissenso mais duro no comitê, com três membros defendendo uma alta de 0,25 ponto percentual já nesta reunião. A leitura geral foi, portanto, um pouco mais dura do que a implícita no texto, ainda que sem sinalização clara de aperto iminente. Quanto aos próximos passos, a autoridade monetária seguiu enfatizando dependência dos dados e evitando guidance explícito.
Na coletiva, Kevin Warsh ofereceu sinais mistos. Por um lado, indicou um Fed mais atento ao aperto já promovido pelas condições financeiras, destacando a elevação dos juros nominais e reais ao longo da curva do Tesouro desde a última reunião. Ao mesmo tempo, reafirmou o compromisso com a inflação de 2% e reconheceu que choques de oferta dificultam a leitura sobre o comportamento subjacente dos preços. A reação imediata do mercado foi condizente com a interpretação de um Fed mais tolerante com a inflação.
PIB dos EUA mostra atividade resiliente apoiada pela demanda doméstica
Ainda nos EUA, também foi divulgado nesta quinta-feira (30) o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, que registrou crescimento anualizado de 1,5%, também abaixo das expectativas do mercado (2,0%). Apesar do ritmo mais moderado de expansão, a composição dos dados mostrou um desempenho sólido da demanda doméstica privada.
As vendas finais permaneceram em patamar robusto, enquanto o consumo das famílias apresentou recuperação em relação ao primeiro trimestre (registrando 3,2%), impulsionado tanto pelo consumo de bens quanto de serviços. O investimento seguiu resiliente, com destaque para o componente residencial e para os gastos em equipamentos associados à inteligência artificial. Em contrapartida, o setor público, especialmente na esfera federal, contribuiu negativamente para o crescimento, enquanto exportações líquidas e estoques também reduziram parcialmente o resultado agregado.
A leitura do PIB segue compatível com uma economia resiliente, sem sinais de deterioração mais ampla da atividade. O fortalecimento do consumo privado e a continuidade dos investimentos reforçam a sustentação do crescimento. Diante disso, a evolução da atividade e da inflação seguirá sendo monitorada para avaliar os próximos passos da política monetária americana.
PCE benigno, enquanto atividade dos EUA segue resiliente
Na agenda de dados, o Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês) de junho reforçou a percepção de moderação inflacionária nos EUA. O núcleo do indicador, medida mais acompanhada pelo Fed, avançou 0,13% no mês, abaixo do esperado e com abertura mais favorável.
A leitura ajuda a consolidar a rodada de dados mais benignos vista recentemente e reduz a pressão imediata por uma resposta adicional do Fed. Ainda assim, parte da melhora pode refletir fatores temporários e questões sazonais, o que recomenda cautela na interpretação das leituras mensais. À frente, a continuidade desse movimento será crucial para testar se a inflação de fato entra em trajetória mais confortável.
Ao mesmo tempo, o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre cresceu 1,5% em termos anualizados, abaixo do esperado, mas com composição boa. O consumo das famílias mostrou recuperação, o investimento permaneceu firme e as vendas finais seguiram em patamar robusto, enquanto estoques, exportações líquidas e setor público pesaram negativamente sobre o resultado agregado. O dado reforça, portanto, a avaliação de resiliência da economia americana.
IPCA-15 melhora e favorece leitura mais branda para o curto prazo
No Brasil, o principal destaque foi a divulgação do IPCA-15 de julho, que avançou 0,06%, abaixo do esperado e desacelerando frente ao mês anterior. Em 12 meses, o índice passou a acumular alta de 4,52%. Mais importante do que o headline, a composição também veio melhor, com surpresa baixista em serviços, alívio em administrados e comportamento mais favorável em bens industriais.
Para a política monetária, o dado oferece algum espaço adicional para uma leitura mais favorável sobre a continuidade da flexibilização. Ainda assim, as incertezas à frente permanecem. O ambiente externo volátil e o comportamento das expectativas mais longas exigem cautela por conta do Banco Central.
Focus mantém alívio no curto prazo, mas expectativas longas seguem elevadas
Essa semana também, o Banco Central trouxe uma nova edição do Relatório Focus que manteve a tendência recente de recuo da projeção de IPCA para 2026, mas trouxe nova alta das estimativas para 2027 e 2028. O IPCA em 12 meses à frente caiu levemente, embora continue em patamar elevado.
No caso da Selic, as projeções ficaram estáveis em todo o horizonte, preservando a leitura de juros altos por período prolongado. Já o PIB mostrou estabilidade em 2026 e novas revisões para baixo em 2027 e 2028, sugerindo alguma acomodação do crescimento esperado nos anos seguintes. No câmbio, as mudanças foram pequenas e sem alteração relevante da mensagem de fundo.
Esse conjunto reforça uma leitura já conhecida: a inflação corrente melhora, mas a reancoragem das expectativas segue incompleta. Para a condução da política monetária, isso significa que a janela para cortes adicionais pode permanecer aberta, mas ainda sob forte dependência da evolução dos dados.
Mercado de trabalho mostra sinais de moderação
Também no Brasil, a taxa de desemprego subiu para 5,5% no trimestre encerrado em junho, com base nos dados dessazonalizados, enquanto houve queda nas métricas de salários. Já a criação do emprego formal veio mais forte do que as expectativas, mas temos visto uma desaceleração ao longo dos últimos meses. De um modo geral, ainda vemos um mercado de trabalho apertado, mas mostrando sinais de moderação na margem.
Zona do Euro surpreende
Na Europa, o PIB da Zona do Euro surpreendeu positivamente no segundo trimestre, com crescimento de 0,4% frente ao trimestre anterior, acima do esperado. Mesmo excluindo a volatilidade da Irlanda, o dado ainda indica uma atividade mais resiliente do que se imaginava, em linha com a melhora recente dos indicadores antecedentes.
Essa leitura sugere que a região conseguiu atravessar o primeiro momento do choque geopolítico com mais resistência, embora siga vulnerável a preços de energia mais altos. O crescimento mais firme ajuda a reduzir temores de contração no curto prazo, mas não elimina o risco de um ambiente mais difícil caso a nova alta do petróleo persista.
Políticas monetária e econômica em foco
Na política monetária, o Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) manteve a taxa em 1,0%, mas a reunião teve viés mais duro, com dissidência a favor de alta e manutenção da possibilidade de ajuste adicional nos próximos meses. O Banco da Inglaterra também manteve a taxa de juros, e três membros votaram por alta. O mercado interpretou a reunião como uma manutenção mais dura.
Já na política econômica, a reunião do Politburo, principal órgão executivo do Partido Comunista da China, reconheceu maiores dificuldades e desafios para o crescimento do país. Ainda assim, não houve sinalização de urgência por novos estímulos, mantendo a estratégia de acelerar medidas já anunciadas, em linha com uma economia ainda sustentada por meta de crescimento factível e setor externo resiliente.
Geopolítica segue no radar, mas sem ruptura do cenário-base
O pano de fundo geopolítico continuou relevante ao longo da semana, com o conflito no Oriente Médio ainda sustentando volatilidade no petróleo. Houve deterioração do noticiário, com expansão do alcance do conflito a novas áreas, mas a resiliência dos fluxos pelo Estreito de Bab el-Mandeb, ao menos por ora, ajudou a evitar uma revisão estrutural mais ampla do cenário para petróleo.
Revisão de Cenário do Itaú BBA – Local
Também nesta sexta-feira (31), a equipe de macroeconomia do Itaú BBA divulgou a revisão de suas projeções econômicas. A projeção de inflação para 2026 foi reduzida para 5,1%, incorporando leituras recentes mais favoráveis e a perspectiva de bandeira tarifária verde de energia no fim do ano. Para 2027, a estimativa caiu para 4,4%, diante de menor inércia inflacionária, embora os riscos sigam assimétricos para cima.
Em relação à atividade econômica, o Itaú BBA revisou o crescimento do PIB de 2026 para 1,9%, incorporando a perda gradual de dinamismo da economia no segundo trimestre. Para 2027, a projeção foi reduzida para 1,5%, refletindo os impactos esperados de um episódio forte de El Niño sobre a produção agropecuária. No mercado de trabalho, a estimativa para a taxa de desemprego foi mantida para 2026 e elevada para 6,1% para 2027.
A projeção para a Selic terminal de 2026 passou para 13,75%, com a inclusão de um corte adicional de 0,25 ponto percentual em setembro. No câmbio, as projeções foram mantidas em R$/US$ 5,30 para 2026 e R$/US$ 5,50 para 2027. A avaliação é que os termos de troca favoráveis e o diferencial de juros continuam dando suporte ao real no curto prazo, enquanto os juros mais elevados nos EUA tendem a favorecer o dólar e limitar uma apreciação adicional da moeda brasileira.
Revisão de Cenário do Itaú BBA - Internacional
Na revisão de cenário global, o Itaú BBA destaca que os riscos inflacionários seguem predominando em um ambiente de elevada incerteza geopolítica. Mesmo com a volatilidade do conflito entre EUA e Irã, as projeções para o petróleo foram mantidas em US$ 80 por barril ao fim de 2026 e US$ 75 ao fim de 2027.
Nos EUA, apesar de fatores que podem aliviar as pressões nos próximos meses, o balanço de riscos da inflação segue altista, o que sustenta a projeção de duas altas de juros de 0,25 ponto percentual ainda este ano, em setembro e outubro. Na Europa, o Itaú BBA projeta mais uma alta de juros pelo Banco Central Europeu em setembro, em um cenário ainda condicionado à geopolítica e aos preços de energia. Na China, as projeções de crescimento foram mantidas em 4,7% para 2026 e 4,5% para 2027.
Na América Latina, o relatório aponta maior divergência entre as economias da região, refletindo diferenças na demanda doméstica, nos impactos climáticos e na exposição às commodities. Ao mesmo tempo, a persistência dos riscos inflacionários deve manter os bancos centrais em postura cautelosa.
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