Impacto do choque de energia na América Latina e a ata do Fed

No Radar do Mercado: nesta edição especial, analisamos o impacto do conflito no Oriente Médio sobre os países da América Latina e analisamos a divulgação da ata da última reunião do Federal Reserve

Por Victor Camacho

5 minutos de leitura

O choque de energia na América Latina

Após mais de um mês do início do conflito no Oriente Médio, uma das repercussões mais evidentes globalmente é a elevação dos preços de combustíveis. A extensão dos impactos em cada país é diretamente dependente de suas “balanças de petróleo”, ou seja, se são exportadores ou importadores da commodity.

Países importadores naturalmente estão sujeitos a riscos significativos em caso de persistência do conflito, enquanto países exportadores, com exceção aos localizados no Golfo Pérsico, apresentam maior capacidade de absorver os efeitos do choque. Preços mais altos de energia podem, por exemplo, elevar as receitas dos governos, abrindo espaço para financiamento de subsídios sobre o preço final, evitando o repasse para preços internos.

Na América Latina, Brasil e Colômbia se destacam como exportadores líquidos de petróleo e derivados. Já o Chile, por exemplo, é um importador líquido. Enquanto isso, o México é um exportador relevante de petróleo bruto, mas importa derivados de forma relevante, e a soma dos dois saldos resulta em um déficit que eleva a vulnerabilidade do país. Essas condições são determinantes na sustentabilidade de medidas de amortecimento do choque sem comprometimento das finanças públicas.

No Brasil, especificamente, o preço de venda nas refinarias é controlado por ajustes periódicos com base nos preços internacionais. O governo adotou medidas como desonerações e subsídios aos importadores de diesel, que devem ser compensados por tarifas temporárias sobre exportação de combustíveis e aumento de outros tributos.

Na Colômbia, os preços são definidos por decreto e a administração tem utilizado o Fundo de Estabilização para absorver as oscilações dos preços internacionais. E, no México, foi adotado um mix entre subsídios e um acordo por um teto sobre o preço da gasolina, deixando o custo fiscal dependente da magnitude e duração do choque. Já no Chile, a situação difere dos demais. Existe um mecanismo de estabilização de preços que ajusta o imposto sobre combustíveis para suavizar choques. Mas, dado que o custo fiscal seria excessivo, o governo permitiu a alta dos preços.

Ainda que as capacidades de reação dos países e, portanto, os impactos do choque sejam distintos, a direção do efeito sobre a política monetária entre os países da América Latina é convergente: menor espaço para acomodação.

Aqui no Brasil, por exemplo, o Banco Central iniciou o ciclo de flexibilização em ritmo mais lento do que o projetado antes do conflito e a expectativa, por ora, é de que o ajuste total seja mais brando, a depender do desenrolar do conflito. Enquanto isso, no México, as preocupações com a inflação devem adiar as expectativas pelo próximo corte. No Chile, cortes de juros já não são mais esperados. E, na Colômbia, o choque deve prescrever uma política monetária ainda mais apertada do que a projetada anteriormente.

Conforme já vínhamos destacando em análises sobre o efeito global, portanto, a duração do conflito no Oriente Médio será a variável fundamental para sabermos os impactos sobre a inflação e, consequentemente, quanto os bancos centrais terão que adaptar suas respectivas políticas monetárias no médio prazo.

Ata do Fed mostra comitê dividido entre os mandados de inflação e emprego

O Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) divulgou na tarde desta quarta-feira, 8, a ata da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês). O documento indicou que a maior parte dos membros acredita que o atual nível de juros deixa o Comitê bem-posicionado para reagir à evolução dos dados, destacando que os riscos altistas para a inflação e baixistas para o emprego aumentaram em meio ao conflito no Oriente Médio.

O documento também sinalizou um Comitê dividido. A maioria está preocupada com riscos ao mercado de trabalho, que poderiam levar a novos cortes nos juros, enquanto muitos membros estão mais atentos aos riscos para inflação, que poderiam prescrever altas à frente. Alguns defenderam, ainda, uma comunicação com sinalização mais aberta, refletindo a possibilidade de ajustes nas duas direções, a depender da evolução do cenário.

Todos os participantes concordaram que a política monetária não possui um plano pré-determinado e que será definida reunião a reunião, um plano compatível com o atual cenário de incerteza elevada. Com isso, as atenções se voltam agora para a divulgação do Índice de Preços ao Consumidor (CPI), a inflação americana, de março que será publicado amanhã e já mostrará efeitos do choque de energia sobre os preços nos EUA.

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