Anúncio de Trump causa alívio nos preços. O que vem depois?
No Radar do Mercado: nesta edição especial, confira a análise do nosso estrategista-chefe de investimentos, Thomas Wu, sobre o anúncio de Trump sobre o conflito no Oriente Médio
Por Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos
Próximo ao final do pregão de ontem, o presidente dos EUA, Donald Trump, passou a sinalizar que o fim da guerra poderia estar próximo. A reação do mercado foi rápida e coordenada: o petróleo recuou de forma expressiva, os juros americanos caíram ao longo da curva, o dólar perdeu força, a volatilidade cedeu e os ativos de risco se recuperaram. Em poucas horas, parte relevante do prêmio de risco embutido nos preços foi devolvida.
Esse alívio, no entanto, veio depois de um movimento particularmente violento nos mercados durante a segunda-feira, 9. A piora não foi desencadeada por uma nova manchete específica, mas por um combo típico de estresse financeiro: a ausência de notícias ao longo do fim de semana (“no news is bad news”) que, somada a movimentos não lineares no petróleo e na volatilidade, acionou mecanismos de ajuste de risco – redução forçada de posições, atingimento de limites de VaR (sigla para “Value at Risk”, uma métrica que estima a perda máxima provável de uma carteira dentro de um intervalo de tempo e nível de confiança definidos) e feedbacks técnicos. O preço passou a se mover mais rápido do que a informação, um sinal clássico de que o custo financeiro da inação estava aumentando.
É nesse contexto que a comparação com um eventual “Taco 2.0” (sigla para “Trump Always Chickens Out” ou “Trump sempre recua” em tradução livre) ganha força. Assim como em outros episódios recentes, o estresse financeiro – desta vez via petróleo, inflação implícita e condições financeiras – parece ter elevado rapidamente o custo de manter uma postura de silêncio ou ambiguidade. O choque deixava de ser apenas geopolítico e passava a ameaçar, de forma concreta, a dinâmica macroeconômica global.
Mas esse tipo de leitura carrega um ponto importante, muitas vezes subestimado: o problema da reflexividade. Quanto mais o mercado passa a acreditar que Trump inevitavelmente cederá diante do estresse financeiro, menor tende a ser o incentivo político para ceder naquele momento, justamente para não parecer fraco. Em episódios anteriores, isso ajudou a produzir um padrão em que a inflexão ocorre quando o consenso deixa de esperá‑la – ou quando já existe uma narrativa politicamente mais bem amarrada de “vitória”, seja lá o que isso signifique na prática.
Por isso, embora o alívio recente nos preços seja relevante, e não deva ser ignorado, ele não equivale, por si só, à resolução do choque. Para fins de alocação, nossa disciplina segue exatamente a mesma: anúncio é importante, mas ação concreta vale muito mais do que palavra.
Por isso, o ponto central para a carteira do cliente permanece objetivo e verificável. Ainda que a sinalização atual possa indicar o início de uma desescalada, o que realmente importa é confirmar se os fatos acompanham o discurso. Em termos práticos, isso implica observar:
- ausência de novos ataques relevantes dos EUA ou de Israel contra ativos estratégicos no Irã;
- ausência de retaliação relevante do Irã contra Israel, bases americanas ou infraestrutura energética no Golfo;
- nenhum novo dano confirmado a campos, refinarias, terminais, oleodutos, tanques de armazenagem ou outros ativos críticos;
- sinais observáveis de normalização no Estreito de Ormuz, com navios efetivamente cruzando, redução das filas e retomada consistente dos embarques;
- melhora operacional, e não apenas política, na postura de armadores, seguradoras e autoridades navais;
- reversão de medidas defensivas por parte dos produtores da região, como cortes de produção, redução de embarques ou declarações de força maior.
Esse continua sendo o eixo central da nossa leitura macro e de alocação. Se a fala vier desacompanhada desses sinais concretos, o alívio de mercado pode até se sustentar no curto prazo, mas a incerteza macroeconômica permanece latente.
Seguimos, portanto, com a mesma postura desde o início do conflito: atenção máxima aos fatos, não às manchetes. Estamos acompanhando os desdobramentos na lupa, fluxo em Ormuz, integridade da infraestrutura, postura militar, seguros marítimos, logística e curva do petróleo, para distinguir ruído de sinal e recalibrar nossa leitura apenas quando os fatos mudarem. Até lá, nossa âncora continua sendo disciplina, método e monitoramento contínuo.*
*Texto escrito por Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos do Itaú, em 10 de março de 2026, às 9h.
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