Bateria de dados dos EUA mantém Fed pressionado para reunião de dezembro

No Radar do Mercado:  divulgações nos EUA reforçam resiliência da atividade nos EUA. Enquanto isso, na Europa, juros se mantêm estáveis, mas Lagarde antecipa saída da presidência

Por Victor Camacho

2 minutos de leitura

O Escritório de Análise Econômica (BEA, na sigla em inglês) dos EUA divulgou nesta quinta-feira (29) os dados do Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês) de setembro. O núcleo do indicador, principal medida de inflação monitorada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), avançou 0,3% no mês, em linha com as expectativas do mercado. Na métrica de 12 meses, o indicador subiu de 3,0% para 3,1%, também em linha com o esperado. O resultado não indicou deterioração adicional do quadro de preços, mas manteve a leitura de inflação ainda pressionada e distante da meta da autoridade.

Também nesta manhã, foi divulgado a primeira medição do PIB dos EUA, com registro de avanço de 3,5% no terceiro trimestre, em termos anualizados. O resultado veio acima das expectativas e representa uma aceleração de ritmo frente aos 2,2% observados no segundo trimestre. O consumo das famílias seguiu como principal motor de crescimento, enquanto o investimento permaneceu resiliente, apoiado pelos gastos em equipamentos associados à inteligência artificial. Assim, o conjunto de dados mantém a leitura de uma economia resiliente, ainda sem sinais mais consistentes de desaceleração.

Para o Fed, a combinação de atividade resiliente e inflação distante da meta tende a reforçar o viés de aperto adicional, ainda que o ritmo e a totalidade dos movimentos sigam dependentes da evolução dos dados. Seguiremos monitorando os próximos dados de inflação, bem como os desdobramentos do conflito no Oriente Médio e dos preços de energia. Dados mais benignos permitiriam manter um ritmo gradual, enquanto núcleos mais pressionados ou energia elevada por mais tempo aumentariam o risco de um ciclo de aperto mais rápido e, potencialmente, mais longo.

Visão de Investimentos: mantemos posição acima do neutro em ações globais, expressa via sobrealocação em ações americanas, e postura neutra em renda fixa global. Permanecemos atentos à evolução das variáveis, prontos para revisitar nossa posição caso o balanço de riscos mude de forma relevante.

BCE mantém juros em meio à saída de Lagarde

Também nesta quinta-feira, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu manter inalteradas as três taxas de juros, em linha com as expectativas do mercado. O comunicado apresentou um tom mais brando, ao retirar a referência à inflação acima da meta por período prolongado e destacar a estabilidade da inflação subjacente e o aperto das condições financeiras. Em meio às tensões fiscais na França, o BCE também não sinalizou redução do aperto quantitativo (QT, na sigla em inglês), preservando a pressão para que o ajuste seja conduzido pela política fiscal francesa, enquanto mantém instrumentos disponíveis para lidar com eventuais riscos de contágio. Ainda assim, seguiu o viés de aperto adicional à frente, em linha com a confirmação na coletiva de imprensa, de que uma alta dos juros foi debatida nesta reunião.

Além da decisão de política monetária, o dia também foi marcado por uma mudança relevante na liderança da instituição. A presidente do BCE, Christine Lagarde, anunciou que deixará o cargo em 7 de fevereiro de 2027, antecipando em cerca de nove meses o fim do mandato iniciado em 2019. A saída já vinha sendo especulada há quase um ano e ganhou força recentemente, quando Lagarde deixou de descartar publicamente essa possibilidade. A decisão abre agora o processo de sucessão, com Pablo Hernández de Cos, ex-presidente do Banco da Espanha e atual diretor-geral do BIS, e Klaas Knot, ex-presidente do banco central holandês, entre os principais cotados. Ambos já integraram por anos o Conselho do BCE à frente de seus respectivos bancos centrais.

A mudança ocorre ainda em meio a uma renovação relevante da cúpula do BCE, já que Isabel Schnabel deixará a Diretoria Executiva em janeiro e o mandato do economista-chefe Philip Lane termina em maio. O impacto imediato sobre os mercados tende a ser limitado, diante da elevada probabilidade de continuidade na condução da política monetária. Ainda assim, a definição dos sucessores ganhe relevância diante de um cenário mais desafiador para o BCE, marcado por inflação elevada e maior estresse nos mercados de dívida europeus.

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