Brasil: possíveis impactos do conflito no Irã

No Radar do Mercado: nesta edição especial, analisamos os potenciais impactos do conflito no Irã sobre a economia brasileira, com foco nos principais canais de transmissão macroeconômica

Por Carolina Sato, estrategista de investimentos

5 minutos de leitura

Como já discutido anteriormente, o preço do petróleo é o principal vetor de propagação dos efeitos do conflito sobre a inflação e o crescimento global. Evidências empíricas e exercícios de modelagem macroeconômica sugerem que um aumento de aproximadamente 10% no preço do petróleo, sustentado por ao menos um trimestre, teria impacto inflacionário relevante, mas não seria suficiente para alterar de forma significativa a narrativa de atividade econômica global.

Para que esse choque começasse a afetar o crescimento, seria necessário que ele fosse mais persistente – durando ao menos dois trimestres – ou substancialmente mais intenso, com elevação mais próxima de 30% nos preços.

Gráfico de linha mostrando a variação do preço do barril de petróleo tipo brent em dólares desde janeiro de 2020
Fonte: Bloomberg e Itaú Private Bank

Nesse contexto, a duração do conflito e a intensidade de seus efeitos sobre o mercado de energia são determinantes para avaliar eventuais mudanças de cenário. No caso brasileiro, o preço do petróleo em moeda local também se configura como o principal canal de transmissão. Nos primeiros dias após a ofensiva militar no Irã, até o momento em que escrevemos este texto, o Brent chegou a operar próximo a US$ 85 por barril, enquanto a taxa de câmbio ultrapassou R$/US$ 5,30.

O impacto mais imediato pode se dar sobre a inflação. Atualmente, os preços domésticos de combustíveis encontram-se abaixo da paridade internacional. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem é de cerca de 17% na gasolina e 42% no diesel, com base nos dados de fechamento desta terça-feira, 3. Em um exercício hipotético no qual se considera um reajuste integral de 17% na gasolina, com repasse parcial ao consumidor final – assumido em 40%, em linha com o histórico – e dado o peso aproximado de 5% da gasolina no IPCA, o impacto estimado seria de cerca de 0,34 ponto percentual na inflação anual.

No caso do diesel, embora o impacto direto sobre o IPCA seja reduzido (peso de aproximadamente 0,2%), os efeitos indiretos tendem a ser relevantes, dada sua importância para as cadeias produtivas e os custos de transporte. Vale lembrar que cerca de 20% a 25% do consumo doméstico de diesel é importado, o que aumenta a sensibilidade a choques externos de preços.

Avaliamos que há espaço para reajustes graduais nos preços dos combustíveis, especialmente considerando a postura cautelosa da Petrobras diante de choques internacionais de energia. Alternativamente, medidas compensatórias, como reduções tributárias, também poderiam ser utilizadas, o que tenderia a suavizar o impacto inflacionário no curto prazo.

Do ponto de vista fiscal, a elevação do preço do petróleo gera receitas adicionais relevantes para o setor público, por meio de tributos, royalties, participações especiais e aumento no pagamento de dividendos. Estimativas indicam que, a cada US$ 10 de alta no petróleo tipo Brent, a arrecadação adicional pode alcançar cerca de R$ 35 bilhões, tanto para a União quanto para estados e municípios.

Esse ganho fiscal ajudaria a compensar eventuais perdas associadas a desonerações de combustíveis. Em 2022, por exemplo, quando o Brent superou US$ 120 por barril em função do início da guerra entre Rússia e Ucrânia, as receitas públicas ligadas ao setor de petróleo registraram forte expansão.

Gráfico de barras mostrando a receita da União ligada ao setor de petróleo em % do PIB por ano desde 2014
Tributos federais ligados à extração de petróleo e gás natural + Receitas de exploração de recursos naturais + Dividendos pagos pela Petrobras. Fonte: Receita Federal, Tesouro Nacional e Itaú Private Bank

Além disso, o Brasil vem se consolidando como importante produtor e exportador de petróleo. A produção nacional está próxima de 4 milhões de barris por dia, o equivalente a cerca de 4% a 5% da oferta global, e o saldo comercial líquido de combustíveis supera US$ 25 bilhões. Estima-se que um aumento de 10% no preço do petróleo resulte em elevação de aproximadamente US$ 3 bilhões na balança comercial. Esse quadro torna o país menos vulnerável do que economias fortemente dependentes da importação de energia, contribuindo para um efeito macroeconômico mais equilibrado diante de choques de preços.

Gráfico de linha mostrando o saldo comercial dos combustíveis em bilhões de dólares desde dezembro de 2005
Fonte: MDIC e Itaú Private Bank

Há também impactos setoriais potenciais, com destaque para o agronegócio. Cerca de 30% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil têm origem no Oriente Médio, embora a Rússia ainda seja o principal fornecedor. Ainda assim, avaliamos que o impacto sobre a safra atual tende a ser limitado, uma vez que parte relevante dos insumos já foi previamente adquirida. Adicionalmente, as vendas externas de carne brasileira podem ser afetadas – de 30% a 40% das exportações brasileiras do produto passam pelo Oriente Médio, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), sendo que cerca de 10% tenham a região como destino final.

Seguimos acompanhando atentamente a evolução do conflito no Oriente Médio para avaliar seus desdobramentos e possíveis mudanças de cenário. Em nossa avaliação inicial, não vemos razões suficientes para que o Banco Central altere seu plano de voo em relação ao início do ciclo de cortes de juros na reunião de 18 de março. Os eventos recentes, no entanto, reduzem a probabilidade de um ritmo mais intenso de afrouxamento, como um corte de 0,75 p.p., hipótese que vinha sendo considerada por parte do mercado em um contexto anterior mais benigno, com o real se aproximando de R$/US$ 5,10.

No cenário base, trabalhamos com um corte de 0,50 p.p., embora, a depender da evolução do conflito e de seus efeitos sobre o balanço de riscos, não possamos descartar um ajuste de menor magnitude. Por ora, mantemos nosso cenário central inalterado, mas permanecemos atentos aos potenciais impactos sobre os portfólios e prontos para reavaliar nossas posições caso o ambiente de risco se deteriore de forma mais significativa.

💬 O que achou deste conteúdo?

Confira os artigos mais recentes

PIB do Brasil desacelera em 2025

No Radar do Mercado: PIB do Brasil perde fôlego na reta final do ano e cresce menos d [...]

Ataque dos EUA ao Irã afeta mercados

No Radar do Mercado: EUA promovem maior intervenção militar no Oriente Médio em mais [...]

Revisão de cenário do Itaú BBA: dólar, inflação e Selic mais baixos este ano

No Radar do Mercado: no cenário local, Itaú BBA projeta câmbio mais apreciado, inflaç [...]