Copom reduz Selic para 13,75% e mantém porta aberta para mais cortes à frente

No Radar do Mercado: Comitê reafirmou necessidade de serenidade e cautela, mas sinalizou que pode continuar com seu ciclo de calibração da política monetária

Por Carolina Sato

5 minutos de leitura

O Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano. A decisão, anunciada na noite desta quarta-feira (16), veio em linha com as expectativas do mercado e com um comunicado que trouxe apenas ajustes pontuais em relação à reunião anterior.

No cenário externo, o Comitê manteve a leitura de incerteza associada aos conflitos no Oriente Médio e à política monetária em economias avançadas, sem adicionar novos elementos. No doméstico, o comunicado trouxe pequenas mudanças, tornando um pouco mais evidente o diagnóstico de moderação gradual da atividade econômica, ainda que em patamar resiliente e com mercado de trabalho aquecido.

Em relação à inflação e suas medidas de núcleo, por sua vez, o Comitê indicou que estas seguiram seu processo de desaceleração, situando-se abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, porém ainda acima da meta central de 3%. Desde a reunião anterior, as expectativas coletadas pelo Relatório Focus para 2026 e 2027 passaram para 4,9% e 4,3%, respectivamente, e permanecem desancoradas, mas sem piora relevante. A projeção do modelo do Banco Central para o horizonte relevante de política monetária (1º trimestre de 2028) foi mantida em 3,2%.

De forma geral, na comunicação, o Comitê reafirmou a necessidade de serenidade e cautela e reiterou que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações. Em nossa leitura, o tom geral ficou neutro, com viés apenas marginalmente mais brando (dovish), com o reconhecimento da desaceleração da economia e sem enxergar piora relevante nas expectativas de inflação. Em resumo, o cenário base segue de continuidade do ciclo de cortes à frente, condicionada à ausência de grandes mudanças, especialmente no câmbio.

Teremos mais informações na próxima semana, com a divulgação da Ata e do Relatório de Política Monetária, que devem detalhar o diagnóstico de atividade mais fraca e as projeções para os horizontes relevantes.

Nossa visão para os mercados

O comunicado de hoje, assim como o anterior, conferiu ao Comitê maior flexibilidade para conduzir as próximas decisões sobre a taxa Selic, condicionando-as à evolução dos dados econômicos e das condições financeiras.

As divulgações mais recentes sobre a economia brasileira indicaram moderação adicional da atividade, sobretudo nos setores mais sensíveis à política monetária, reforçando a avaliação de que o atual patamar de juros tem contribuído para o processo de desaceleração econômica. Por outro lado, o ambiente externo tornou-se mais desafiador, diante da elevação dos juros em economias avançadas e da persistência de conflitos geopolíticos, que mantêm o preço do petróleo e de seus derivados em níveis elevados.

No cenário doméstico, incertezas relacionadas à política fiscal, aos potenciais impactos do El Niño, à implementação da reforma tributária, à aprovação do fim da escala 6x1 e a uma eventual alta nos preços dos combustíveis mantêm uma assimetria altista para a inflação em 2027. Nesse contexto, o Banco Central reforçou a percepção de elevada incerteza, preservando uma postura cautelosa e dependente da evolução dos dados.

Em relação à nossa alocação tática, mantemos um viés neutro para a renda fixa. Reconhecemos que uma desaceleração mais pronunciada da atividade econômica poderia abrir espaço para um ciclo mais amplo de redução da taxa de juros adiante. Entretanto, diante do grau ainda elevado de incerteza e da assimetria altista dos riscos para a inflação em 2027, entendemos que a classe de ativo ainda requer uma abordagem prudente. Seguimos acompanhando atentamente a evolução dos fatores mencionados e avaliando, de forma disciplinada, novas oportunidades de investimento.

Para renda variável no Brasil, o corte da Selic para 13,75% já está precificado e não deve produzir impacto relevante no curto prazo. A classe de ativos segue sensível ao nível ainda elevado de juros, pois custo de capital, valuations e fluxo para ativos de risco dependem de um ambiente monetário mais benigno. Além disso, o comportamento do investidor estrangeiro deve seguir como um dos principais vetores de curto prazo para a bolsa local, dada sua relevância para a formação de preços e sua sensibilidade tanto às condições globais de liquidez e de percepção de risco quanto ao cenário eleitoral doméstico.

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