Inflação acelera no Brasil e nos EUA sob efeito da alta do petróleo

No Radar do Mercado: IPCA vem acima do esperado pelo mercado com maior contribuição dos grupos Transporte. Nos EUA, CPI veio em linha com as projeções, mas também maior que fevereiro

Por Victor Camacho

4 minutos de leitura

Inflação avança 0,88% no Brasil em março

O IBGE divulgou nesta sexta-feira, 10, o IPCA de março, registrando uma alta de 0,88% na passagem mensal, acima do esperado pelo mercado (0,77%) e da leitura anterior (0,70%). Em 12 meses, a taxa acumulada acelerou de 3,81% para 4,14%, com uma composição um pouco pior na margem e se reaproximando do teto do intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual ao redor da meta de 3,0% ao ano definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Combinação de gráfico de linhas e de barras mostrando a variação mensal e do acumulado em 12 meses da inflação no Brasil nos últimos 13 meses.
Fonte: IBGE e Itaú Private Bank

Os dados mostram que o grupo “Transportes” foi o principal destaque, com alta de 1,64% no mês e impacto de 0,34 p.p. no índice cheio, seguido por “Alimentação e bebidas” (1,56%; 0,33 p.p.). No primeiro caso, a alta foi impulsionada pela pressão da gasolina, que avançou 4,59% e respondeu por 0,23 p.p. de contribuição.

Na leitura qualitativa, a surpresa altista ficou concentrada em gasolina e em industriais, com nova pressão em higiene pessoal, ainda que serviços tenham vindo mais próximos do esperado e melhores do que o quadro de fevereiro sugeria.

Para a política monetária, o dado reforça uma leitura ainda desconfortável para a inflação corrente, mas não traz, por ora, uma piora clara do cenário à frente via núcleos. Nos mercados, uma leitura acima do esperado e com qualitativo marginalmente pior, mas sem sinal inequívoco de revisão mais forte para a inflação do ano, tende a sustentar cautela na curva de juros doméstica.

Seguimos monitorando a trajetória dos preços de energia e a persistência da pressão em industriais para saber qual será a extensão do impacto do conflito no Oriente Médio nos preços domésticos.

Inflação avança 0,9% nos EUA em março

Também nesta manhã foi divulgado o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos EUA, que avançou 0,9% em março, em linha com a expectativa do mercado. A leitura representou uma forte aceleração frente ao ritmo de fevereiro, refletindo o impacto da alta de preços de energia com o conflito no Oriente Médio. Com isso, a variação anual do índice saltou de 2,4% para 3,3%.

Já o núcleo do CPI, que desconsidera itens mais voláteis, como alimentos e energia, registrou variação mensal de 0,2%, abaixo da projeção do mercado (0,3%). A surpresa baixista veio mais concentrada no componente de serviços, em especial tarifas aéreas, com pressão mais contida do que o esperado, enquanto o componente de bens manteve o ritmo de alta visto em fevereiro. Com isso, a variação anual do núcleo acelerou marginalmente, para 2,6%.

Combinação de gráfico de linhas e de barras mostrando a variação mensal e do acumulado em 12 meses do núcleo da inflação dos EUA nos últimos 13 meses
*O resultado mensal do CPI de outubro de 2025 não foi divulgado por conta do shutdown nos EUA. Fonte: Bloomberg e Itaú Private Bank

No que diz respeito às tarifas, algumas categorias seguiram apresentando sinais de repasse defasado, mas houve componentes indicando algum alívio, potencialmente refletindo a invalidação, em fevereiro, da maior parte das tarifas impostas pela administração Trump, que foram substituídas por uma alíquota temporária de 10%.

Outra informação relevante é a tradução do núcleo do CPI para o núcleo do Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês), métrica de referência para o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA). A princípio, a leitura de hoje aponta para um núcleo do PCE moderadamente elevado, com a divulgação dos dados de preços ao produtor na próxima semana auxiliando a melhor calibrar a projeção.

Em linhas gerais, apesar da aceleração do índice cheio, que era amplamente esperada pelo mercado, o núcleo avançou menos que o projetado e apresentou composição mais benigna. Essa leitura reforça a necessidade de cautela por parte do Fed, mas não deve alterar a atual sinalização de que, frente a riscos para os dois lados do mandato, a autoridade seguirá dependente da evolução dos dados. A interpretação parece alinhada à tímida reação do mercado após a divulgação, com o foco agora se concentrando nas negociações entre EUA e Irã ao longo deste final de semana.

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