Resumo da Semana: superquarta traz alta de juros nos EUA e novo corte da Selic no Brasil

No Radar do Mercado: a semana foi marcada por decisões de política monetária no Brasil, nos EUA e na Inglaterra, além de pressão sob o preço do petróleo e dados de atividade

Por Carolina Sato

8 minutos de leitura

Fed eleva juros e projeções reforçam juros altos por mais tempo

O principal evento da semana foi a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), que elevou a taxa de juros em 0,25 ponto percentual, para o intervalo de 3,75% a 4,00% ao ano, em decisão unânime e em linha com as expectativas.

O comunicado seguiu descrevendo a atividade americana como sólida, com consumo resiliente e investimento robusto, ao mesmo tempo em que reforçou que a inflação permanece elevada. A principal novidade foi a inclusão da mensagem de que a decisão apoiaria um retorno mais rápido da inflação à meta de 2%.

O tom mais duro, no entanto, veio da atualização das projeções. A mediana dos juros foi revisada para cima em todo o horizonte, praticamente eliminando o espaço para cortes até 2028, com forte sinalização de mais uma alta ainda este ano. A estimativa de taxa neutra de longo prazo subiu para cerca de 3,2%, reforçando a leitura de juros estruturalmente mais altos.

No campo da inflação, o núcleo do Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês) foi revisado para cima em 2026, com convergência à meta apenas em 2029, indicando um processo de desinflação mais lento.

Na coletiva, o presidente Kevin Warsh reafirmou as mensagens de Jackson Hole, ao enfatizar que não basta a inflação desacelerar, sendo necessário que ela convirja de forma clara e em velocidade adequada. Reiterou que não trabalha com sinalizações prévias sobre os próximos passos e atribuiu a alta dos juros longos à combinação de atividade forte, competição por capital ligada ao ciclo de investimentos em inteligência artificial e riscos geopolíticos.

Em conjunto, a leitura é de um Fed mais confiante na solidez da economia, mais preocupado com a persistência da inflação e menos disposto a reagir a leituras pontuais. Esse ambiente de juros americanos mais elevados pode sustentar o dólar em patamar mais apreciado no curto prazo.

Copom reduz a Selic e mantém porta aberta para novos cortes

Na agenda doméstica, o destaque ficou por conta da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, em linha com as expectativas. O comunicado trouxe apenas ajustes pontuais em relação à reunião anterior e foi interpretado com tom neutro, mas com viés marginalmente mais brando.

No cenário externo, o Comitê manteve a leitura de incerteza associada aos conflitos no Oriente Médio e à política monetária em economias avançadas. No campo doméstico, tornou um pouco mais evidente o diagnóstico de moderação gradual da atividade, ainda que em patamar resiliente e com mercado de trabalho aquecido. Sobre a inflação, reconheceu que o índice cheio e as medidas de núcleo seguiram em processo de desaceleração, situando-se abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, porém ainda acima da meta central de 3%.

O Comitê reafirmou a necessidade de serenidade e cautela e reiterou que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações. As expectativas de inflação coletadas pelo Relatório Focus seguem desancoradas, mas sem piora relevante desde a última reunião, enquanto a projeção do modelo do Banco Central para o horizonte relevante foi mantida.

Dessa forma, o cenário base segue de continuidade do ciclo de cortes à frente, condicionada à ausência de grandes mudanças, sobretudo no câmbio.

Focus mantém expectativas de inflação pressionadas nos horizontes mais longos

Também nesta semana, a nova leitura do Relatório Focus mostrou que a projeção para o IPCA de 2026 foi revisada para baixo, contrastando com o avanço da expectativa para os próximos 12 meses. Para 2027, houve leve alta marginal, enquanto 2028 permaneceu estável, ainda acima da meta.

Do lado da atividade, a estimativa para o PIB de 2026 recuou novamente, com acomodação adicional também em 2027 e 2028, em linha com o cenário de desaceleração gradual da economia. Já em relação ao câmbio, as projeções mudaram pouco, enquanto as estimativas para a Selic permaneceram inalteradas em todo o horizonte relevante, preservando a mensagem de juros elevados por período prolongado.

Em conjunto, o relatório reforça uma economia que tende a perder tração à frente, mas sem gerar, por ora, alívio suficiente na frente inflacionária. A persistência de expectativas acima da meta nos anos seguintes continua impondo limites à flexibilização monetária, mantendo a política monetária cautelosa e dependente da evolução dos dados.

Atividade no Brasil confirma desaceleração gradual

Ainda na agenda doméstica, o conjunto de indicadores de atividade divulgados na semana reforçou o quadro de arrefecimento gradual da economia. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) recuou 0,22% em julho na comparação com junho, segunda queda consecutiva, com resultado disseminado entre os setores e consolidando a tendência de perda de fôlego na margem.

A leitura foi corroborada pelos demais dados que já tinham sido divulgados pelo IBGE. A produção industrial avançou 0,2% em julho, interrompendo dois meses de queda, enquanto o varejo restrito recuou 0,8% e o ampliado avançou 0,4%, ambos próximos do consenso. Os segmentos mais sensíveis a crédito seguem pressionados pelo ciclo de juros. Já o volume de serviços ficou estável.

O quadro corrobora o cenário de desaceleração gradual da demanda doméstica, com a política monetária restritiva transmitindo-se à atividade. À frente, será importante acompanhar a evolução da inadimplência nos segmentos sensíveis a crédito e monitorar o nível elevado de estoques na indústria.

Banco da Inglaterra mantêm taxa de juros estável em decisão dividida

No cenário internacional, além do Fed, outras autoridades monetárias também estiveram no radar. O Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) manteve a taxa básica de juros, em decisão com placar dividido entre membros favoráveis à manutenção e outros que defendiam nova alta.

Na Zona do Euro, a leitura final do Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) trouxe revisão marginal para baixo da inflação cheia, enquanto o núcleo permaneceu inalterado. Vale lembrar que, na semana passada, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu elevar juros e elevou as projeções de inflação para a região nos próximos anos.

O conjunto de decisões reforça um ambiente global ainda marcado pela preocupação com a persistência inflacionária, em que os principais bancos centrais preservam postura cautelosa e dependente da evolução dos dados. Esse cenário mantém condições financeiras mais apertadas e adiciona um vetor relevante para juros e câmbio nas economias emergentes.

Petróleo elevado mantém geopolítica no centro da leitura global

O pano de fundo internacional seguiu dominado pelas tensões no Oriente Médio. Apesar de sinais marginalmente mais positivos ao longo da semana, com indicações de intenção de retomada de canais diplomáticos e reafirmação de compromissos com o cessar-fogo, o cenário permaneceu incerto e sem avanços concretos. O fluxo pelo Estreito de Ormuz seguiu como ponto de atenção, e a China elevou o tom ao defender medidas para sua reabertura, refletindo preocupação com os impactos do choque energético sobre sua economia.

Nesse ambiente, o petróleo permaneceu acima de US$ 100 por barril, mantendo riscos relevantes tanto para a inflação quanto para a atividade global. A persistência de preços mais altos de energia torna mais desafiadora a tarefa dos bancos centrais, ao pressionar índices de preços no curto prazo, com potencial de efeitos secundários mais duradouros sobre as expectativas e custo adicional ao crescimento.

Assim, a geopolítica segue como fonte importante de assimetria para o cenário, funcionando em sentido oposto ao processo de desaceleração observado em diversas economias.

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