Terras raras e o backhand de uma mão
TenisVesting: no tênis e nos investimentos, o segredo é resistir, não arriscar tudo
Por Andrea Masagão Moufarrege, Team Leader - Investment Funds Specialists

🎾📈 Terminei 2025 e iniciei 2026 participando de conferências, lendo relatórios sobre o balanço do ano e vendo as tendências para 2026. E nessa minha jornada percebi que alguns temas dominam as análises atualmente – assim como certos golpes dominam o tênis moderno.
Uma das discussões mais presentes foi sobre os elementos de “terras raras”. Esse parece ser o fator chave no atual contexto global, considerando sua posição estratégica para a transição energética, a revolução tecnológica e a geopolítica moderna.
Confesso que, no início, interpretei o termo literalmente e visualizei grandes fazendas inexploradas em lugares exóticos. Mas, com um pouco de pesquisa, descobri que “terras raras” não tem relação com terras e nem são tão raras assim – e que o Brasil tem posição de potencial destaque nesse processo.
As “terras raras” não são “terras” no sentido de solo, território ou área agrícola. O nome vem de uma convenção histórica da química do século XVIII e XIX. Antigamente, o termo “terra” era usado para designar substâncias sólidas, não metálicas, que não se dissolviam facilmente em água, nem se difundiam com calor comum. Algo próximo do que os químicos chamam atualmente de óxidos. E eles não eram “raros” no sentido de escassos, mas pela dificuldade de conhecer, explorar e distinguir para estudar.
📈 Atualmente, definem-se como “terras raras” um grupo de 17 elementos químicos tais como neodímio, praseodímio, lantânio, cério etc. Eles são estratégicos hoje em dia porque são componentes indispensáveis para os seguintes setores e seus produtos:
- Energia: turbinas eólicas, painéis solares, baterias etc.;
- Tecnologia: smartphones, laptops, chips, entre outros;
- Defesa: drones, radares, armas de precisão etc.

Sem esses minerais, a agenda de descarbonização global não ganha escala. Empresas como Apple e Tesla ficam sem insumos e países tem sua soberania ameaçada. Assim, fica bem mais fácil entender a relevância do termo.
Nesse universo, a China responde por cerca de 60% a 70% da produção e por mais de 80% do refino mundial. EUA, Europa, Japão e Coreia do Sul buscam reduzir essa dependência. Esse desequilíbrio cria um risco geopolítico real em que negociações de priorização de exportações se tornam instrumento de pressão política e econômica.
Novas minas estão sendo encontradas na Austrália, no Canadá, na África e na América do Sul. O Brasil, por sua vez, tem potencial geológico relevante, mas ainda pouco explorado industrialmente, especialmente em lantânio, cério e neodímio, em Minas Gerais e Goiás.
O grande ponto é que o valor das terras raras não está só na mineração, mas na separação química, no refino e na transformação. E se o Brasil extrai pouco, refina menos ainda. Ou seja, vendemos o minério bruto enquanto o mundo compra a tecnologia embutida.
Existe, portanto, uma grande oportunidade embutida aqui, mas, assim como na formação de um jogador de tênis vencedor, ela deve ser trabalhada com inteligência para que o Brasil se torne um player estratégico – e não apenas mais um fornecedor comum nesse jogo global.
🎾 Traçando um paralelo com o tênis, o estilo de preparação do jovem talento brasileiro João Fonseca, por exemplo, seria uma excelente inspiração para o Brasil usar todo seu potencial em terras raras: investimento na base de formação, parcerias e estrutura para extração máxima de valor.
As terras raras me remetem a uma jogada que está se tornando cada vez mais rara no circuito profissional: o backhand com uma só mão. O valor das terras raras não está apenas na escassez, mas também na complexidade da extração. Da mesma forma, o backhand com uma mão só exige tempo de bola perfeito, preparação antecipada, coordenação fina, força, equilíbrio e confiança técnica. É um golpe menos tolerante ao erro, depende de uma execução precisa, mas é, ao mesmo tempo, altamente eficaz e extremamente elegante.
Há quem diga que essa jogada vá desaparecer com o tempo. A escolha pelo backhand com as duas mãos é mais fácil, a quantidade de jogadores que fazem essa opção é bem maior, então é bem possível que o golpe fique mais escasso, já que talento e habilidade são grandes barreiras de entrada para sua prática. O que vale também para a complexidade de extração dos minerais de terras raras.
Atualmente, apenas o italiano Lorenzo Musetti representa esses tenistas raros entre o top 10 do ranking mundial. No top 100 como um todo, são cerca de 10% que contam com essa jogada no repertório. Mas, para encher de alegria os olhos de quem gosta de tênis, listo os meus preferidos pela estética, impacto histórico e coragem técnica: Roger Federer, Stanislas Wawrinka, Gustavo Kuerten, Richard Gasquet, Dominic Thiem, Nico Mattar, Lorenzo Musetti, Grigor Dimitrov e Stefano Tsitispas.
Particularmente, eu prefiro pensar que o backhand com uma mão não vai desaparecer. Ele apenas ficou restrito a quem aceita o custo da excelência. As terras raras seguem a mesma lógica. Não são raras porque faltam. São raras porque exigem preparo, paciência e domínio técnico.
🎾📈 Em ambos os casos, o valor não está na popularidade ou disponibilidade, mas na capacidade de execução mesmo sob pressão. Em partidas longas – no tênis ou na geopolítica – é o golpe raro, bem treinado, que pode desequilibrar o jogo a seu favor.
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