Resumo da Semana: dados de inflação e reabertura de Ormuz em destaque
No Radar do Mercado: inflação divulgada no Brasil e nos EUA dá novos sinais sobre a condução da política monetária. Confira também a revisão de cenário do Itaú BBA
Por Carolina Sato
Banco Central do Brasil divulga a Ata do Copom e o Relatório de Política Monetária
O Banco Central divulgou na terça-feira (23), a Ata da última reunião do Copom, que trouxe um tom mais duro do que o comunicado divulgado na semana passada, quando a autoridade monetária reduziu a taxa Selic para 14,25% ao ano e adotou viés mais brando.
O documento divulgado nesta semana indicou deterioração do cenário inflacionário, com inflação corrente acima da meta e piora nas expectativas em diferentes horizontes. Além disso, trouxe um balanço de riscos assimétrico, com viés altista para a inflação, algo que não havia sido explicitado no comunicado da semana passada.
Já o Relatório de Política Monetária (RPM) de junho divulgado na quinta-feira (25) mostrou revisão altista para a atividade e para a inflação no horizonte relevante, em comparação ao documento anterior. A projeção de crescimento do PIB para 2026 foi elevada de 1,6% para 2,0%, enquanto a nova trajetória projetada para a inflação indica aceleração até o fim de 2026, seguida de desaceleração gradual até 3,1% no final de 2028.
Essas comunicações reforçam postura de cautela diante de incerteza elevada e expectativas ainda desancoradas. Nesse contexto, a autoridade monetária indica que os próximos passos dependerão da evolução dos dados, mantendo flexibilidade na calibração dos juros.
Leitura do IPCA-15 de junho vem melhor
Na quinta-feira (25), também foi divulgado o IPCA-15 de junho, que avançou 0,41%, abaixo do esperado pelo mercado (0,44%). No acumulado em 12 meses, a alta passou de 4,64% para 4,80%. Do lado qualitativo, o principal destaque foi a surpresa para baixo em serviços. Ainda assim, o núcleo de serviços segue rodando em patamar elevado, acima de 5%.
De forma geral, após surpresa altista nas leituras recentes de inflação, o dado divulgado nesta semana traz algum alívio. Ainda assim, a inflação ao consumidor continua bastante pressionada e demanda cautela por parte da política monetária.
Nos EUA, inflação PCE e revisão do PIB mantém Fed sob pressão e cautela
Na quinta-feira (25), o Escritório de Análise Econômica (BEA, na sigla em inglês) divulgou os dados do Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês) de maio, indicando avanço de 0,4% frente a abril. O número veio abaixo do esperado, mas a taxa acumulada em 12 meses atingiu 4,1%, o maior valor em três anos.
Já o núcleo do PCE, medida que exclui os componentes mais voláteis de energia e alimentação, e é acompanhada de perto pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), avançou 0,32%, em linha com as expectativas. Frente a maio do ano passado, a alta foi de 3,4%, se distanciando ainda mais do nível de inflação buscado pelo Banco Central.
Já a terceira revisão do PIB do 1º trimestre dos EUA, também divulgada na quinta-feira (25), trouxe um ajuste importante: de 1,6% (tri/tri anualizado) divulgado anteriormente para 2,1%. A melhora, no entanto, foi puxada pelo setor externo, enquanto a demanda doméstica perdeu fôlego.
Esses dados sugerem uma atividade um pouco “menos forte” na margem, mas ainda resiliente. Pelo lado de preços, continuamos vendo uma inflação pressionada e distante da meta do Fed.
Fluxo no estreito de Ormuz aumenta gradualmente
Em relação ao conflito no Oriente Médio, ainda que bem abaixo dos níveis pré-conflito, os fluxos de energia pelo Estreito de Ormuz estão sendo retomados gradualmente, o que trouxe adicional alívio aos preços de petróleo na semana. Contribuíram na mesma direção notícias de que o Iraque poderia deixar a OPEP no caso de sua cota de produção não aumentar, e que as importações de petróleo pela China estão recuando.
Existem, por outro lado, fatores que tendem a manter alguma pressão altista nos preços da commodity. O ritmo de retomada dos fluxos depende da limpeza de minas aquáticas no estreito e do reinício de plantas, fatores que não são imediatos. Além disso, a recomposição de estoques consumidos pelos países tende a manter uma demanda mais elevada no curto prazo.
Revisão de Cenário do Itaú BBA - Local
Já nesta sexta-feira (26), a equipe de macroeconomia do Itaú BBA divulgou uma revisão de suas projeções econômicas para o Brasil e o mundo. Entre os destaques, a equipe entende que a taxa terminal da Selic este ano deve ser mais alta do que o projetado anteriormente.
Começando pela inflação, o Itaú BBA manteve sua expectativa de IPCA em 5,4% ao final de 2026, mas com ajustes no balanço de riscos, que passou de altista para ligeiramente baixista, ao deixar de incorporar altas adicionais de gasolina na refinaria diante do recuo do preço do petróleo. Para 2027, a projeção segue em 4,5%, com balanço assimétrico para cima, por conta da incerteza em torno do impacto do El Niño sobre a oferta de grãos.
Em relação ao câmbio, a equipe de economistas do Itaú BBA revisou a projeção para 2026 de R$/US$ 5,15 para RS/US$ 5,30, e a de 2027 de R$/US$ 5,35 para R$/US$ 5,50, refletindo sobretudo um cenário externo mais adverso para o real, com expectativa de juros mais elevados nos EUA e de fortalecimento do dólar à frente.
Diante disso, a equipe também revisou sua projeção para a Selic de 2026, de 13,75% para 14,00% ao ano. A leitura é que a comunicação do Banco Central aponta para uma postura mais cautelosa da política monetária diante da piora do cenário base e da avaliação de que o balanço de riscos em torno desse cenário seria assimétrico para cima. Ainda assim, sem fechar totalmente a porta para novos cortes. Sendo assim, o BBA projeta um último corte de 0,25 p.p. na reunião do Copom de agosto.
Por fim, em relação ao PIB, o Itaú BBA manteve a projeção de crescimento de 2,1% em 2026, impulsionado por estímulos fiscais e parafiscais, e de 1,7% em 2027, em linha com a desaceleração do estímulo fiscal.
Revisão de Cenário do Itaú BBA - Internacional
Na revisão de cenário global, a leitura da equipe de macroeconomia do Itaú BBA é de que o acordo entre EUA e o Irã em torno do conflito no Oriente Médio viabiliza a reabertura do Estreito de Ormuz. Com isso, a expectativa é de que o petróleo fecha 2026 em US$ 80/barril e 2027 em US$ 75/barril, aliviando a pressão sobre preços de energia ao redor do mundo.
Nos EUA, a equipe do BBA projeta que a inflação persistente e um Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) reativo tornam alta de juros mais prováveis. O banco projeta uma inflação de 3,3% este ano e 2,9% no ano que vem e passou a projetar duas altas de juros por parte do Fed ainda em 2026, em setembro e outubro.
A combinação de um Fed mais duro e a consequente reprecificação alta de juros, em meio a um cenário de atividade ainda resiliente nos EUA, impulsionou a o dólar nas últimas semanas e a equipe do BBA revisou a sua projeção para o índice DXY neste ano e no próximo, compatível com uma revisão do Euro de EUR/US$ 1,18 para EUR/US$ 1,13 tanto em 2026 quanto 2027.
Enquanto isso, na Europa, após a confirmação da alta de juros projetada para junho, o BBA agora projeta uma nova alta apenas em setembro (vs. julho no cenário anterior), considerando que o alívio nos preços de energia retira a urgência de uma nova alta.
Na China, as projeções de crescimento de 4,7% em 2026 e 4,5% em 2027 foram mantidas. Na leitura do BBA, os dados de atividade do segundo trimestre mostraram mais uma rodada de fraqueza da demanda doméstica. As exportações chinesas seguem o principal pilar de crescimento do país, impulsionadas agora pelo ciclo de inteligência artificial, o que mantém baixa a urgência por estímulos à demanda doméstica.
Por fim, na América Latina, a visão da equipe de macroeconomia é de que o panorama atual de crescimento na região aponta para um ponto de partida fraco em 2026, seguido de recuperação gradual ao longo de 2027. As projeções para este ano foram mantidas em 3,5% na Argentina, 4,0% no Paraguai, 1,1% no México, 1,5% no Chile, 3,3% no Peru e 1,2% no Uruguai e revisada de 2,1% para 2,2% na Colômbia.
Confira também o resumo feito pela economista Lorena Dourado no podcast Itaú Views Morning Call desta sexta-feira:
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